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Feijão também prova se uma pessoa é sábia, ou não

Eu sou desses caras que acreditam que todo problema tem solução e, por isso, jamais me aflijo e nem me desespero diante de uma insólita turbulência na minha plácida rotina de jornalista aposentado. Dependendo da conotação entre o inusitado acontecimento e a maneira de encará-lo, posso até nem lhe dar a mínima e manter minhas energias concentradas apenas no que me é agradável; ou então, faço de contas que não existe, enquanto nenhuma solução se avizinhar.

Eu ajo como se, de repente, eu me visse diante de uma realidade inversa ao meu mundo e fosse obrigado, por circunstâncias alheias à minha vontade, a aceitá-la, como acontece, por exemplo, em relação ao Rex, cachorro da minha vizinha ao lado, que só começa a latir, pontualmente, na hora de minha soneca da tarde. É um problemão, mas como não distingo solução à vista, não me apoquento e sigo as minhas experiências de vida corroboradas por herméticas convicções que só a mim dizem respeito.

Assim, continuo no aguardo de uma solução que, eu sei, um dia surgirá envolta numa iridescente aura de benevolência divina. Isso não quer dizer, no entanto, que eu tenha saco de monge budista malasiano e sangue de barata. Não, não tenho e, se for inevitável, sempre reagirei à altura do que estiver me incomodando. Se precisar até saio nos tapas, sem ter do que me arrepender depois.

Claro que não aconselho ninguém a ser truculento por qualquer motivo e jamais me passou pela cabeça a intenção de influir na maneira de ser de qualquer pessoa. Acho que cada um deve continuar sendo o que sempre foi.

Posso até dar exemplos de comportamentos adequados para tal ou qual situação, mas sempre deixando a cargo de meu interlocutor a tomada da decisão que melhor lhe convier. Aliás, assim como aconteceu há pouco, no Bar do Gaúcho, quando Zeca Bonella, um velho engenheiro da Vale do Rio Doce aposentado e que já há alguns anos é meu companheiro de cerveja.

Eu estava, ainda, no primeiro copo de cerveja, quando o Zeca entrou no bar e se sentou ao meu lado, pedindo desculpas pelo atraso. Eu o desculpei, mas o alertei que Pedrinho, o garçom, não era moleque de ninguém e, portanto, não poderia ficar submetido a esperas intermináveis de contumazes fregueses retardatários.

- Vou me redimir – disse Zeca, acenando para Pedrinho e chamando-o: “Você me perdoe, pois eu juro que, de agora em diante, chegarei sempre antes que Chicão”.

Nós três rimos, Pedrinho se afastou e Zeca, depois de sorver seu primeiro copo de cerveja, me surpreendeu com uma confissão. “Chicão estou com um problema muito sério e que já está me enchendo ao ponto de explodir”.

- Bota prá fora. É para isso que servem os amigos e a mesa de bar – disse eu.

- É que chegou um novo morador no meu prédio que parece não gostar de dormir e passa a noite toda ouvindo Beethoven – disse-me, continuando. “Eu já falei com o síndico (que, diga-se de passagem, é um zé buceta e foi por isso que eu não votei nele), mas ele me disse que o caso era interessante e que ele iria estudá-lo, para depois me dar a resposta.

- Então, como a solução do problema já está sendo encaminhada, resta a você aguardar – respondi-lhe.

- Só que, Chicão, já se passaram dois meses e a coisa continua a mesma. Eu não agüento mais!

- Não vou lhe dizer o que deve fazer, mas vou usar o exemplo de como você deve agir com ponderação: “Um monge, próximo de se aposentar, precisava encontrar um sucessor e escolher, entre seus discípulos, os dois melhores para fazerem uma prova de sapiência”.

- Porra, Chicão, meu negócio é com um vizinho mal educado. Não tem nada de religião – advertiu-me Zeca.

- Calma, estou apenas lhe dando um exemplo milenar – respondi-lhe, continuando: “Como eu disse, o monge queria colocar em xeque o grau de sabedoria dos dois discípulos e deu a ambos dez grãos de feijão que deveriam, na manhã seguinte, colocar dentro dos sapatos, calçá-los e percorrer uma distância de dois quilômetros em torno do templo”.

- Chicão, essa história só está servindo para aumentar a minha sede. Vou pedir mais uma cerveja.

- E peça também ao Pedrinho para trocar os copos – completei e prossegui: “Na manhã seguinte, os dois discípulos iniciaram a caminhada. Só que um deles percorreu menos de 200 metros, sentou-se, tirou os sapatos e desistiu. O outro continuou, fez todo o percurso e se apresentou ao monge mestre, fazendo as devidas reverências”.

- Esse cara era foda, Chicão.

- Não. Ele era apenas sábio – disse eu, concluindo a história: ”Terminada a prova, o discípulo perdedor perguntou ao vencedor como ele tinha conseguido caminhar dois quilômetros com feijões dentro do sapato: “Simplesmente eu os cozinhei antes de colocá-los no sapato”, respondeu.

- Legal, Chicão! Entendi e, de agora em diante, vou seguir à risca esse exemplo de sabedoria: passarei a andar com meus tênis cheios de feijão cozido e não darei mais bola pro vizinho.

Rimos e tomamos mais cinco garrafas de cerveja, tentando realizar um feito inédito: relacionar corruptos, desde a época em que Tomé de Souza, primeiro governador geral, chegou ao Brasil, no Século XVI.

 



Escrito por chicoflores às 19h54
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Confesso: sou o cara mais rico do mundo

Quando minha neta Júlia Flores, de seis anos, me perguntou “vô, você é riiiiico?”, não respondi de pronto, pois preferi prolongar a ressonância daquela infantil indagação e estender, o quanto eu pudesse, o tempo para a resposta. Optei por mais alguns instantes de silêncio, concentrando toda atenção naquele agradável semblante de criança emoldurado por aquela exuberante aura de expectativa que só as fadinhas demonstram.

Por isso estendi ao máximo aquele lapso de tempo que me parecia mágico, pois tudo se encaixava na magia do momento, tanto o olharzinho impaciente que de forma direta procurava sinais de assentimento, em qualquer movimento da minha face, quanto o próprio tempo que parecia estacionado. Doía-me a angústia do apelo “vô responda... responda”, mas respeitei a seriedade, importância e o inusitado do momento.

Na verdade eu precisava pensar, pois me deploraria, mais tarde, se minha resposta frustrasse não apenas a expectativa, mas também a ânsia de informação que aquele sedento cerebrozinho demonstrava. Mesmo como avô, não me sentia no direito de, simplesmente, agradar à netinha querida com uma fútil resposta e, sim, no dever de transmitir uma informação escorreita e tão sincera quanto a intenção da pergunta.

Claro que eu não iria formular conceitos ininteligíveis de economia para uma criança de seis anos e, nem tampouco, atordoaria aquele cerebrozinho, ainda em formação e famélico de informações, com extemporâneas e controversas definições acadêmicas de pobreza e riqueza. Aliás, extemporâneas e filosoficamente questionáveis, já que a abundância, no sentido da posse farta de alguma coisa, ao longo da história humana, teve significados múltiplos e variados que, forçosamente, não queriam dizer “ser rico”.

Por exemplo: assim como outros afortunados de espírito, eu também já cheguei à conclusão de que o atual conceito de riqueza é paupérrimo e perde consistência diante de uma avaliação filosófica, mesmo superficial. O que é riqueza, no contexto da humanidade? O australopitecos, que há dois milhões de anos caminhava nu, sem eras nem beiras, pelas savanas africanas teria uma definição? O seu sucessor evolutivo, o homus sapiens, o que diria? E o homem antigo, aquele de 10000 anos aC que viveu no sistema de troca, conseguiria uma definição?

Particularmente, eu tenho certeza de que, se um filósofo grego clássico como Platão, ou Aristóteles, ou Sócrates ou Epicuro, caminhasse hoje pelas ruas de uma das cidades mais ricas do mundo, como Nova York, não veria ali qualquer vestígio de riqueza. Não veria porque, para qualquer um dos filósofos citados, a riqueza estava associada à disponibilidade de tempo livre e o seu uso para o exercício da cultura. Sou até propenso a aventar a hipótese de que os mesmos filósofos apenas diriam: “eles não aprenderam nada do que a gente ensinou”.

Chegando um pouco mais perto no tempo, podemos dizer ainda que, se um cidadão da Idade Média imitasse os filósofos gregos e fizesse o mesmo percurso em Nova York, ele também não veria ali nada que pudesse ser classificado de riqueza, a não ser na primeira igreja em que entrasse. Ou seja, aqui cabe a pergunta: como se deve encaixar o termo “riqueza” nas minudências da evolução humana? Para os australopitecus, riqueza era ser livre e para o homus sapiens, igualmente, desde que houvesse uma caverna para dormir. Já para os gregos antigos, a riqueza era medida pela quantidade de tempo que uma pessoa dispunha para se dedicar à cultura e à evolução de consciência.

Portanto, eu, particularmente, concluo que o conceito moderno de riqueza está divorciado do padrão evolutivo comum. Sou até propenso a dizer que, ao longo da própria evolução, o conceito sofreu distorções e passou a ser definido por concepções aleijadas de realidades. Um tipo de concepção que se difere da dos primórdios da humanidade, quando o egoísmo, a vaidade e a intolerância ainda não eram sentimentos conhecidos, e sequer se aproxima do que concebiam nossos mais recentes ancestrais da antiguidade ou da própria idade média.

Hoje, a riqueza é ditada pelo volume do que se tem para, simplesmente, ostentar e, através da ostentação, atrair aqueles segmentos econômicos que também ganharão com isso. Ou seja, atrair aqueles que fazem a parte dos abutres na natureza. Só isso, nada mais. Não importa se é livre para ir e vir a qualquer momento e circunstância; e não importa se é educado, se acumulou cultura e se é sobejamente sábio. A sabedoria perdeu importância e seu lugar foi ocupado pela sagacidade, assim como a inteligência, que virou capacho da contumácia. Também não importa se a pessoa vive feliz com o que tem e se gosta da vida como ela é. O importante é ter posses para ostentar.

Sou até propenso a afirmar que ocorreu uma inversão nos conceitos de riqueza e pobreza, porque pobreza passou a ser vista como riqueza e o que era riqueza passou a ser concebido como pobreza. Hoje, o cara rico é aquele que tem muito dinheiro, mas não pode dizer que tem, como o meliante bíblico que vivia escondido com sua fortuna por temer o assédio da população; é aquele que paga fortunas para construir mansões e é obrigado a escondê-las atrás de muralhas, guardadas por seguranças, como faziam os usurpadores da antiguidade; e é aquele que tem posses, mas não as anuncia, temendo represálias, como faziam os proscritos,os corsários e piratas dos séculos 16, 17 e 18. Ricos, hoje, são aqueles que vivem reclusos, comem escondidos e são obrigados a freqüentar lugares protegidos, como faziam os excomungados medievais.

E antes de responder a Julinha, pensei ainda: ”eu não sou preso a nada, nem física e nem doutrinariamente; tenho todo o tempo do mundo para dedicar ao meu enriquecimento cultural e à minha evolução de consciência e espiritual, em casa ou no bar do Gaucho ou do Coreano; não preciso de seguranças para guardar minha residência; não escondo fortunas porque não preciso; vou onde eu quero e não dou satisfação a ninguém, seja de dia ou de noite; e não guardo medo ou receio em relação ao meu dia seguinte. Não tenho estresse, tensões e/ou preocupação de qualquer espécie (a não ser a de que Julinha caia e se machuque quando está brincando comigo de pula-corda) e estou de bem com a vida. Até meu salário de aposentado eu recebo em dia, sem falhas.

- Vô, responda, responda!

Claro, filha, eu sou riquíssimo e pode dizer isso a todo mundo.



Escrito por chicoflores às 03h44
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Estou certo de que não vou para o céu, inferno ou paraíso

Às vezes, nos diálogos com meus botões, principalmente naquelas insípidas e melancólicas tardes chuvosas em que, sentado na varanda do apartamento, tenho apenas a chuva como referência de algo vivo, eu me pergunto por que sou avesso à religião, a ponto de considerá-la uma afronta à dignidade humana. Inclusive, por mais que me esforço e tento entender suas ocorrências e manifestações ao longo da história, sempre chego à mesma conclusão: o mundo teria sido bem melhor sem ela.

Sou até propenso a acreditar que, se o homem não tivesse entrado em contato e se submetido a seus mais variados e pernósticos dogmas, a humanidade estaria bem mais evoluída em termos espirituais, sociais, econômicos, científicos e culturais. Vou até mais adiante, sem qualquer sentimento de culpa, para afirmar que, sem a submissão aos seus preceitos de vida, o ser humano estaria hoje bem mais próximo de Deus, como estava antes do aparecimento da religião.  

Claro que não chego àquele ponto da exasperação em que a lógica é substituída pelo destempero e a contestação pura e simples passa a ter por base o fútil argumento de que “não sei, nem quero saber”. Ou seja, não vejo a religião, nos tempos modernos, como um fenômeno histórico desprezível que sequer deva ser levado em conta. Ao contrário, sei que convivemos com ela há mais de 10 mil anos. Mas também sei que ela só vingou a partir do instante histórico em que os aglomerados humanos passaram a ser dirigidos por castas.

A própria arqueologia prova que as manifestações religiosas são tão antigas como o próprio conceito de humanidade surgido com o aparecimento dos primeiros “homus sapiens” (homem sabido), há mais de 250 mil anos. Com base nessas descobertas, o raciocínio científico perspicaz montou um quadro mostrando que aqueles que se sobressaiam aos demais pela força, facilidade de expressão e/ou de convencimento, passaram a ditar regras de condutas baseadas em conceitos sobrenaturais, em proveito próprio.

Esses primeiros homus sapiens, sabidamente sabidos, viviam na maior moleza. Não caçavam, não colhiam nada e eram aquinhoados com todo tipo de presentes que o restante da tribo podia dar. Isso porque, todos acreditavam que eles tinham aquele tipo de sabedoria que ninguém mais tinha. Sabiam se expressar com fluência jamais vista anteriormente, tinham sempre a melhor respostas para qualquer problema e nunca erravam quando diziam que “amanhã pode chover ou fazer sol, a não ser que fique nublado”.

Esses homus sapiens transmitiram seu gens para suas gerações futuras que continuaram a aperfeiçoar, pelos milênios seguintes, as formas, trejeitos, maneiras e modus operandis de se sobressaírem em relação ao restante das tribos, para se manter no topo social e se transformarem, posteriormente, em faraós, monarcas, reis e vai por aí. E como concluíram que não poderiam se perpetuar como ”grande manda chuva” do momento histórico de cada um por toda vida, delegaram poderes e criaram os sacerdotes, que passaram a se responsabilizar pelos problemas divinos.

Cabia a esses sacerdotes manter o restante da tribo submisso a tipos de regras de conduta e de vida que não perturbassem a harmonia e o sossego da vida em comum e não ameaçasse a família dominante. Por isso, esses sacerdotes passaram a integrar as castas da tribo que eles estavam obrigados a defender e a preservar, para manter seus próprios privilégios. Eles passaram a ser os guardiões de tudo que se relacionasse à convivência da tribo, desde o nascimento até à morte de seus membros, passando pelos conceitos de vida. Ou seja, foram os sacerdotes que criaram as bases do surgimento do Estado e deram as condições às castas dominantes de manterem o poder.

Claro que a humanidade estava vivendo os seus primórdios e, como o início de tudo é tumultuado, houve mudanças, com transformações radicais.  A própria Bíblia diz, em “Gênesis”, nos seus vários capítulos e versículos, que “reinados sucumbiram por não se subordinarem aos preceitos divinos. Ainda a Bíblia, também em Gênesis, ressalva que ”só Abraão manteve seu povo unido, por ter disseminado entre todos os ditames e exigência de Deus”. Ou seja, as castas que foram incompetentes na maneira de subordinar o povo sucumbiram.

O exemplo de Moisés, ex-membro da elite egípcia, é bem convincente, já que esclarece uma das maneiras como as regras “divinas” foram impostas e aceitas, lá nos primórdios da humanidade. Moisés tinha o poder sob seu povo, mas um poder respaldado apenas na sua capacidade de liderança política e na presença de algumas centenas de seguidores, igualmente ex-membros da casta comerciante e/ou ex-soldados egípcios dispostos a dar a vida por ele. Todavia, esses fiéis seguidores não seriam suficientes para manter a população subjugada. Faltava algo mais, algo intangível, mais poderoso a ponto de conter qualquer reação e contestação à sua liderança.

O exemplo de Moisés esclarece uma das maneiras como as regras “divinas” foram impostas e aceitas, nos primórdios da humanidade. Moisés tinha o poder sob seu povo, mas, poder apenas respaldado na sua capacidade de liderança e na presença de algumas centenas de seguidores fiéis, que mais tarde formariam o embrião de seu exército, não seria suficiente para subjugar a população. Foi nesse exato momento que entrou em funcionamento a inteligência herdada daqueles seus ancestrais homus sapiens e Moisés criou os “Dez Mandamentos”, depois daquela papagaiaba toda de subir na montanha e lá ficar 40 dias.

Daí em diante, não houve mais retrocesso e tudo fluiu plenamente, em favor de famílias que se achavam “protegidas” divinamente. Surgiram estados, com governos fortes e respaldados por dogmas religiosos ininteligíveis que divinizariam toda espécie de instituições que garantiam o poder das castas e o subjugo da população. Foram criados exércitos, polícias e/ou milícias que nos milênios seguintes definiram como nós, o povo, iríamos nos comportar diante da ousadia de estar vivo.

É por isso que eu aceito a tese marxista de que a religião “é o ópio do povo”. Claro que eu aceito essa teses, mas sem aquele radicalismo entorpecente dos utópicos. Aceito-a e faço dela a minha tese, afirmando que a religião foi aquele cheirinho excedente de cocaína que deu um “barato” a mais do previsto pela Evolução. Acho até que o próprio processo evolutivo, em princípio, foi omisso e negligente, pois não levou em conta a perspicácia, a criatividade, o jeitinho e, o que é mais importante, a malandragem humana que se aperfeiçoaria com o passar dos milênios.

Foi mais ou menos isso que eu pensei hoje à noitinha, quando festejava o finzinho do sexto sábado da minha semana de aposentado e a chegado do domingo, no Bar do Coreano, aqui em Jardim Camburi, Vitória (ES), tomando minha quarta cerveja com tira-gosto de Koni, e Tonico Barcellos, um velho também aposentado que estava comigo, surpreendeu-me, ao perguntar:

Chico, amanhã é domingo, né?

- Sim.

- É que Mariquinha vai me acordar cedo para ir à missa e eu não estou muito a fim.

- Tudo bem, cara, vai embora. Deixa que eu pago a conta. Aliás, não quero mais que sua mulher me culpe por nada. Lembra daquela vez em que você exigiu que fôssemos tomar a saideira no puteiro da Zefa, no Bairro de Fátima, e eu é que levei a culpa por desencaminhá-lo?

Não é isso, Chico. É que, apesar de ter sido carola por toda a minha vida, agora, depois de velho, acho apenas que perdi tempo.

Não respondi e nem instiguei Tonico a continuar falando, mas também tinha a mesma opinião dele, não em relação e mim, mas a muitos caras inteligentes que conheci e que poderiam ter sido mais úteis à humanidade se não tivessem se tornado fanáticos religiosos. Apenas enchi meu copo, enquanto Tonico se explicava.

- O problema, Chico, é que eu não pretendo mais gastar duas preciosas horas de uma ensolarada manhã de domingo, na igreja, ouvindo o padre me dizer quais são as diferentes maneiras de eu ir para o inferno.



Escrito por chicoflores às 01h30
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Foi bom lembrar Aristóteles na virada do ano

 

Segundo o velho e bom filósofo grego Aristóteles, a espécie humana se divide entre aqueles que poupam como se fossem viver para sempre e aquela turma que gasta como se fosse morrer amanhã. Ele também disse muito mais coisas que há vários séculos continuam sendo usadas e outras que, com o passar do tempo e da própria evolução humana, foram descartadas por não terem mais serventia prática.

 

Uma dessas frases que nenhum aprendiz de filósofo usa mais na sua TCC é a aquela que diz que “o convidado é melhor juiz de uma refeição que o cozinheiro”. Ela caiu em desuso porque as coisas mudaram, ao longo desses mais de 2.300 anos, depois que o velho “Aris” fazia suas andanças e dizia o que bem entendia nos anfiteatros, nas escolas filosóficas ou na taberna de sua preferência, em Atenas.

 

Hoje, dificilmente, um juiz, seja de Direito ou de Futebol, vai reclamar do cozinheiro de qualquer bar. Aliás, nem só esses dois dignitários, mas todo cara de bom senso, principalmente os experientes beberrões, jamais colocará em dúvidas as qualidades de um cozinheiro. Pode até não comer, se sentir algo diferente no gosto, na cor ou no odor do prato servido, mas nunca ofenderá diretamente a turma da cozinha.

 

Claro que o Jus Sperniandi não é negado a ninguém e qualquer um pode, ao se sentir lesado na qualidade do prato pedido, fazer o maior escarcéu. Pode chamar o gerente, dizer que não paga e até dar queixa no Procon, mas precisa estar ciente de que jamais deverá voltar ao tal bar, mesmo se for amigo do dono. Até será melhor esquecer que esse estabelecimento existe, pelo menos, até que o cozinheiro seja mudado, para não ter de comer escarro e pingos de urina misturados na comida.

 

Eu até acredito que o próprio Aristóteles sabia disso e não era assim tão contundente, quando seus tira-gostos de ovelha eram servidos mal ou bem passados além do ponto. Vou até mais adiante ao afirmar que, na maioria das vezes, ele apenas reclamava quando tinha uma boa platéia de neófitos à sua volta, mas sempre à boca miúda, sem deixar que o pessoal da cozinha o ouvisse, mais ou menos como acontece hoje.

     

Na verdade, todo inteligente freqüentador de bar, seja aquele botequim "bunda de fora" ou o sofisticado “lobby bar” de qualquer hotel cinco estrelas, segue à risca um tipo de mandamentos da boa convivência com o pessoal da serventia. Ninguém deixa de levar em conta que o atendimento é uma recíproca baseada no comportamento. Isso quer dizer que a cortesia do bar está na mesma proporção da cortesia do freguês

 

- Eu, por exemplo, Chico, sempre trato garçom com fidalguia - dizia-me Zeca Bonela ontem, na virada do ano, na pérgula da piscina do Hotel Canto do Sol, aqui em Jardim Camburi (Vitória-ES),

 

Zeca fazia parte de minha mesa que reunia quatro amigos igualmente aposentados e beberrões aqui do bairro dispostos a receber o Ano Novo com festas. E ainda não eram 21 horas de 2010 e já estávamos ingerindo a segunda grade de cerveja, sem que ninguém desse sinal de cansaço, quando o garçom que nos servia reclamou do barulho que fazíamos. Pedindo desculpas, ele disse que a reclamação era dos clientes logo ao lado, um compenetrado casal de turistas de idioma ininteligível.

 

De imediato, fizemos uma autocrítica para detectar onde estávamos nos excedendo e chegamos à conclusão de que o velho Quim, com seu violino, era o causador da reclamação. O próprio Quim aceitou a acusação e prometeu só tocar na hora da virada de ano. “E vou tocar como tocaria Luthier Antonio Stradivari, em 1700, em seus melhores momentos de inspiração, sem aceitar crítica de ninguém”.

 

O garçom ficou aliviado e ao mesmo tempo contente por não ter de enfrentar um entrevero entre quatro velhos beberrões festivos e dois turistas esnobes que, por certo, ele nunca mais veria na vida dele. E ele até tinha certeza, levando em conta a experiência, que a melhor gorjeta sairia de nossa mesa e não da mesa daqueles estrangeiros exigentes que havia duas horas ainda estavam na primeira dose de vodka com água de coco e já tinham recusado um “penne ao pesto roso”, por estar mal feito.

 

- Nós somos daqui e vamos continuar vindo aqui. Portanto, o melhor que faremos será atender ao garçom – acrescentou Zeca Bonela ao longo de nossa autocrítica, completando: “Gente, para nós freqüentadores de bar, o garçom deve ser entendido como um Anjo Gabriel empunhando a sua espada, que pode nos mandar para o céu ou para o inferno”.

 

Eu entendi o que Zeca queria dizer e lhe dei razão. Até sugeri que, a partir daquele incidente com o casal de turistas, sempre avisássemos ao garçom sobre o que iríamos fazer. “Afinal, gente, somos apenas quatro felizes velhos aposentados de bem com a vida”, disse.

 

- Tudo bem, Chico, mas não precisamos ser submissos e passivos só porque somos velhos – vociferou Quim, dizendo que “se nós estamos pagando, temos que ser bem tratados”. O mesmo disse Tonico Barcelos, adiantando que, apesar de estar três anos sem pagar a taxa da OAB, “sou advogado com todas as prerrogativas que me garantem a Constituição brasileira e minha missão continua a de defender a legalidade”.

 

- Para mim – ponderou Raimundinho - vamos deixar para decidir tudo isso depois que o Ano Novo chegar, e falta muito pouco, apenas mais uma grade de cerveja, acho.

 

Depois de ouvir todos os meus companheiros de mesa, dirigi-me ao garçom que continuava de pé à nossa volta e garanti que, a partir daquele momento, até a chegada de 2011, nós seríamos quatro monges, mas que não me responsabilizaria sobre o que seríamos a partir da chegada de 2011. “Por isso, por via das dúvidas, pegue logo essa gorjeta” conclui, entregando-lhe uma nota de R$ 50.

 

- Não se preocupem, aqui vocês mandam e  voltem sempre – concluiu o garçom, olhando com desdém para o casal de turistas de idioma ininteligível.

 

E eu bebi como um gambá em vésperas de núpcias e não me arrependo, apesar da ressaca que continua irredutível, apesar dos suquinhos que estou tomando.



Escrito por chicoflores às 02h35
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Para ser um bom beberrão é preciso ter talento

 

Eu jamais confundi aptidão com talento, mas não vejo essas duas características humanas como diametralmente opostas. Sei que as manifestações de cada uma se diferenciam na prática e, às vezes, sequer se combinam, pois uma pode inibir ou neutralizar a outra. Todavia, quando as duas se harmonizam em um mesmo indivíduo, ocorre o surgimento de um gênio.

 

Eu mesmo, ao longo de 40 anos de jornalismo, conheci e convivi com jornalistas que transpiravam aptidão em tudo que faziam. Eram repórteres seguros na coleta e transmissão da informação, redatores perspicazes na preparação do texto, editores lúcidos na formulação de conteúdos e diretores de redação de insofismável liderança. Todos eram maravilhosamente aptos e não frustravam expectativas.

 

Só não excediam os limites do que aprenderam e se sentiam realizados com o que faziam. Até rejeitavam qualquer opinião que redundasse em aceitação de novos conceitos e mudanças de modus operandi, pois não concebiam outra forma de trabalhar. Suas ações e a maneira de atuação continuariam sempre as mesmas, assim como a concepção do que faziam na rotina de trabalho, e não agregavam novos valores ao que faziam.

 

Eram aptos, mas como caudatário da aptidão, estavam dominados pela impaciência, alimentavam orgulho exagerado, seu egocentrismo brotava à flor da pele e eram donos de uma falta de modéstia de fazer inveja qualquer mandarim da China medieval. Não chegavam a ser excrescência dentro de um contexto determinado e, nem tampouco, viviam fora da realidade profissional que, de verdade, dominavam com perfeição.

 

O que eles não sabiam, e não aceitariam se alguém lhes dissesse, é que não tinham talento, mas apenas aptidão, uma característica genética talvez transmitida por um ancestral remoto no tempo.  Por isso exerciam a profissão com perfeição padronizada, ao longo dos dias, meses e anos, sem qualquer modificação significativa. Eram escravos dos genes e agiam sob sua determinação, sem dar qualquer chance a um novo salto evolucionário qualitativo da espécie humana e nem da profissão e/ou empresa.

 

Claro que o exemplo que estou usando não pode ser entendido com uma generalidade, mas apenas como algo localizado e restrito a uma atividade laboral que eu conheço, pois em muitos outros tipos de trabalho, é a aptidão que deve predominar. Em áreas exatas, por exemplo, o talento poderia complicar e frustrar o exercício o profissional, pois faltaria o senso comum. É o caso de um matemático, de um médico, engenheiro, físico, químico... E por aí vai.

 

A história, mesma, está cheia de exemplos de profissionais que o talento obrigou a mudar de profissão para voltarem a ser pessoas normais, alegres, felizes e realizadas. Antes, sentiam-se como peixes fora d’água e não viam qualquer afinidade com o que faziam. Esses caras eram competentes no trabalho e produtivos no desempenho das funções, mas não estavam felizes e realizados, mesmo pertencendo às altas hierarquias da empresa ou órgão público.

 

- Chico, é o nosso caso – dizia-me hoje à tardinha, no Bar do Gaucho, meu companheiro de copo Zeca Bonela, depois de uma demorada preleção sobre genialidade.

 

Como compenetrado esotérico, Zeca já tinha passado mais de meia hora falando dos dons do ser humano e sua importância na formulação das próprias atividades cósmicas. Ele falava sério e, mesmo depois da quinta garrafa de cerveja, tinha argumentos peremptórios e irretorquíveis. “Chico, nos somos o Cosmos, que é um ser vivo e vive em função do que nós somos, aprendemos e devolvemos a ele em forma de experiência de vida. Só nós, não, mas toda forma viva espalhada no universo, seja biológica, energética, vegetal ou mineral”.

 

Claro que, de vez em quando, o Zeca me assusta e me faz vê-lo como alguém fora do contexto humano conhecido. Teve um dia, por exemplo, que depois de muitos copos, cheguei a indagar, olhando-o de soslaio e com sorriso instigante, se ele era pessoa comum ou um ET infiltrado. Ele sorriu e respondeu: “Chico, até que eu gostaria de ser um extraterrestre, mas com cinco filhos já criados que, apesar de eu ser um velho aposentado ainda mamam em mim, e uma mulher velha que não larga do meu pé, seria rejeitado em qualquer outro planeta”.  

 

- É o nosso caso, Chico – continuou Zeca - porque temos talento e só as pessoas talentosas e, consecutivamente, sensíveis a ponto de viver um mundo mental mais feliz e diferente dos demais, fazem o que nós estamos fazendo agora: curtir essa tarde-noite com um bom papo e cerveja gelada.  

 

Dei razão ao Zeca.

 



Escrito por chicoflores às 01h20
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O pior de tudo é, depois da farra, voltar prá casa

Eu não gosto de bebericar em casa e prefiro tomar as minhas cervejas no bar. Não sei explicar esse tipo de preferência e, nem tampouco, me importo com ela, que pode ser chamada de idiossincrasia de beberrão, ou outra coisa. Mas, sendo o que for e tendo a classificação morfossintática que melhor aprouver ao interessado, para mim, beber em casa é o mesmo que assistir às óperas “Turandot”, de Puccini, ou “Rigoleto”, de Verdi, pela televisão. Não há encanto, não há magia...

Claro que a casa da gente é um abrigo, aliás, o único abrigo que, apesar de vulnerável na atualidade, nos mantém, razoavelmente, afastados dos dissabores do mundo. Na verdade, é nela que nos refugiamos, quando o lado de fora se torna hostil e nos faz sentir pequenos. Já dentro dela, por mais modesta que possa ser, própria ou alugada, nos sentimos grandes como um monarca poderoso, mais poderoso até que qualquer dos césares romanos, sem contar com o Alexandre, o “Grande”, ou o Gengis Khan.  

Todavia, apesar de ser um refúgio seguro e onde somos a lei (até o establishment dizer o contrário), a casa da gente sedimenta-se em sólidos pilares de pragmatismo. Tudo nela é racional, objetivo e concreto, que vai do verbal, no relacionamento, às mais simples manifestações e necessidades do corpo humano. Só que, dentro dela, somos meros coadjuvantes do milenar drama épico da humanidade e continuamos a fazer a nossa parte, talvez, seguindo scripts adredemente preparados.  

Já o bar sedimenta-se em pilares subjetivos que se sustentam em um tipo de alma. Mas, não é aquela alma independente da matéria e que sobrevive à morte do corpo, como aprendemos nas aulas de catecismo. Não, não é isso e não tem nada a ver com concepções religiosas. É um tipo de alma sem registro em compêndios espiritualistas e que sequer é reconhecida por qualquer insigne mestre do esoterismo ou da metafísica.

Acho que é uma alma que só nós, os freqüentadores de bar, sabemos distinguir, pois ela é fruto de um contexto que vai muito além da dicotomia tradicional entre corpo e alma. A alma do bar é integral, não exclui nada, unifica todo o ambiente, estimula todos os sentimentos amorosos e estimula todas as carícias. Ela é uma alma versátil e com o poder de um mágico capaz de transformar um botequim “bunda de fora” num suntuoso bar de navio transatlântico de primeira linha.

Eu mesmo sinto a alma do bar se manifestando em todos os detalhes. Ela está em cada nova cerveja que eu peço ao garçom e nos copos e nos goles ingeridos; e também está em cada gesto de acender o cigarro e na forma oblíqua e dissimulada de como eu estou sendo olhado por aquela “coroa” saudosista e solitária sentada um pouco mais adiante. Eu ainda noto a participação da alma do bar no entusiasmado agradecimento do cantor de seresta, como se, de verdade, a platéia estivesse com a atenção concentrada nele.    

Eu também vejo a alma do bar na ternura do olhar que aquela exuberante mulher sentada ao lado do marido, ou sei lá o quê, dirige ao jovem garçom de longos cabelos louros, que eu pensava ser viado, mas que retribui de soslaio, como se já se conhecessem há muito tempo. Sinto, ainda, a mesma alma presente na repentina e furiosa despedida daquele “setentão” que se levantou da mesa e, de dedo em riste, vociferou para a jovem morena sorridente: “Não me procure mais. Não sou palhaço”.  

Claro que a casa da gente merece ser chamada de “recesso sacrossanto”, mas, no entanto, não tem a magia que o bar tem. A casa nos faz sentir protegidos, já o bar nos deixa livres para sonhar e rompe todas as amarras de nossas fantasias. No bar, tudo é encanto emoldurado por uma ambiência de luzes e tipos de som que nenhum grande maestro conseguiria compilar e nenhuma grande orquestra conseguiria tocar. E isso sem contar com a esfuziante, justificada e necessária participação dos bêbados contumazes.

É por isso que eu fico puto da vida, na hora de pagar a conta e voltar prá casa.



Escrito por chicoflores às 02h02
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Entre viver e morrer, melhor é mudar de bar

Há épocas na vida em que a quebra da rotina se torna um imperativo, até mesmo, para sobrevivência, como aconteceu na nossa evolução, há oito milhões de anos, e que nos distanciou 1% de DNA dos chipanzés.  A mudança se apresenta como imposição tão inexorável, como se fosse uma inusitada manifestação intuitiva tão irreprimível que fica difícil minimizá-la e/ou protelá-la. E essa agonia entre aceitar ou não a mudança pode levar minutos, horas, dias, ou meses, dependendo da impetuosidade de cada um.

Para alguns a mudança pode ser feita num repente, como trocar de camisa, mas para outro, a mudança fica caudatária de muitas outras mudanças menores para se concretizar. Então, a troca de rotina, mesmo quando é impositiva e ditada pelos consensos objetivo e subjetivo de nossa consciência, não se dá de pronto para todo tipo de pessoa.

Também, se levam em conta os ensinamentos de berço, ambiente familiar, o meio em que a pessoa evoluiu e os conceitos culturais, religiosos e políticos que a forjaram e aos quais ela se mantém submetida. Não dá nem para se livrar dos próprios exemplos domésticos de convivência entre irmãos, no período da infância, pois eles estão cristalizados no subconsciente de cada um e são de difícil extirpação.

Atualmente, por exemplo, tem muita gente ganhando dinheiro com livros de auto-ajuda para sair da rotina. Ganham aqueles que os escrevem, ganham quem os imprimem e ganham quem os vendem. Aliás, a cadeia de beneficiário é imensa, mas a dos enganados é bem maior ainda, na proporção de um por um milhão. Ou seja, milhões de panacas os compram por não acreditar que a força de vontade é a coisa mais poderosa do universo.

Eu até já cataloguei algumas teses que servem de leit motiv desses livros de auto-ajuda, mas uma delas me chamou a atenção pela sagacidade do seu autor que dizia: “Se a rotina está acabando com você e os seus dias estão sem graça, tome a iniciativa de começar pequenos projetos para mudar o seu estado de ânimo”. Com base nessa premissa de mudança, o tal autor montou um best seller, com mais de 300 páginas, simplesmente relacionando tarefas diárias de uma pessoa jovem comum empreendedora e saudável.

Outro autor, um pouco mais sutil, mas menos sagaz, sedimentou a tese do seu livro na afirmativa de: “Faça alguma coisa prazerosa que você não faz há muito tempo”. E na sequência de 200 páginas escreveu seu livro na base de indicações que podem ser obtidas em portfolio de agências de turismo, publicidade de resort e em catálogos de hotéis fazenda. Coisa de maluco, no sentido ético da palavra, mas válido para um mundo lotado de ingênuos.

E foi por conhecer essa pernóstica realidade que eu não contei até dez, quando o velho Quim me convidou, algumas horas atrás, depois da segunda cerveja:

-Chico, vamos mudar de bar? Eu já estou cheio deste bar do Coreano. Preciso de novos ares, novas caras de garçons e novos tira-gostos.

-Eu também e sugiro o bar do Gaucho. Vamos?

-Negócio fechado, Chico. O que eu quero é sair da rotina.

 



Escrito por chicoflores às 00h34
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Do que está registrado no DNA ninguém se livra

Como eu não sou submisso a qualquer tipo de opinião, posso rejeitá-la ou não, e não estarei fazendo favor algum, caso concorde com ela. Acho até que o ideal seria que cada ser humano discordasse do que lhe fosse dito de imediato e se mantivesse neutro em relação às formas de pensar de outra pessoa. Dessa maneira, acredito, usufruiríamos melhor da nossa condição pedante de "animais inteligentes" que adotamos, como se o resto da fauna não existisse.

Hoje eu sei que, no caso dos humanos, todo mundo já nasce com uma diretriz própria, que está registrada no DNA individual, e que norteará a vida. Nesse registro sempre fica estampado o que cada um será: se vai ser membro da massa ignara, será apenas massa de manobra; se vai integrar a elite que dependerá da massa de manobra para existir, será líder e não adianta apelar. Não é, portanto, o que erroneamente se convencionou chamar de destino e, nem tampouco, imposição divina. Na verdade, cada um nasce já prontinho para ser o que será e não há apelação.

Eu nem mesmo acredito mais em influência de berço, já que, por mais pobre ou rico que for o ambiente de nascença, este não será o elemento predominante da vida a ser seguida. O cara tanto pode ter nascido na riqueza e acabar sendo um mero membro da massa de manobra, como nascer na pobreza e acabar sendo um líder integrante da elite e viver a custas da massa de manobra que, diga-se de passagem, tem que ser a maioria da população. E não importa o nível intelectual, pois o cara estará sempre subordinado ao registro do seu DNA.

Isso não quer dizer, no entanto, que aquele que nasce para ser massa de manobra é um ser de segunda classe. Ao contrário, ele tem uma missão muito importante e até, pode-se dizer, que é fundamental para a existência da humanidade, pois cabe a ele manter a integridade da organização dos humanos. Sem os massa de manobra, por exemplo, a vivência humana seria caótica, não haveria hierarquia e nem regras de comportamento.  Eu até acho que sequer teríamos sobrevivido como espécie e já estaríamos extintos, mesmo antes de um segundo meteorito, depois daquele que matou os dinossauros, atingir a terra.

E foi esse argumento que eu usei, sem muita ênfase, agora há pouco, no bar do Gaúcho, quando Mário Villaverde, um imigrante espanhol que aqui chegou, há 35 anos, na época da implantação das primeiras usinas de pelotização da Vale do Rio Doce, me disse que gostaria de ter o dia com mais de 24 horas. “Pacho (eu odeio quando ele me chama de Pacho e não de Chico), agora como aposentado, preciso de mais horas para “vivir” plenamente”.

Mário foi um dos primeiros técnicos em lingotamento que Brasil conheceu e, durante sua vida profissional entre nós, transmitiu experiências e formou muitos outros que se multiplicaram e permitiram ao país deixar de importar mão de obra especializada nessa área. Mas, ele nem gosta de se lembrar de quando aqui chegou, pois “eu demorei muito para deixar de pensar como espanhol e passa a pensar como um brasileiro de verdade”. Hoje, ele até bate no peito ao dizer que “sou um cidadão brasileiro e pai de quatro brasileiros, dois médicos e dois engenheiros”, apesar de manter o sotaque da terra de Cervantes.

Fui eu que lembrei a Mário, no bar do Gaucho, que um escritor conterrâneo seu, de nome Ramón Gómez de la Serna, já havia chegado a defender, com ênfase, a instituição da vigésima-quinta hora do dia: “¡Oh, si hubiera una hora más, hora y momento excepcional de repuesto veinticinco!'', exclamava com emoção. E também disse a Mário que, com o dia tendo somente 24 horas, nós, aposentados, já somos uma espécie de querubins, com mais horas seríamos anjos de primeira hierarquia com total liberdade para usar nossos poderes divinos.

Mas, voltando ao Ramon Gomes, ele achava que o aumento do dia lhe favoreceria a criatividade, porém, como ninguém lhe dava ouvidos, deixou Madri e foi morar em Buenos Aires, onde, também, não encontrou ambiente para continuar pensando em tal besteira. Claro que ele tentou, ainda por algumas vezes, disseminar sua idéia do aumento das horas do dia, mas, como na época, os argentinos estavam mais interessados em tirar da cabeça dos militares a idéia de que eles não eram políticos, o velho escritor resolveu ficar na dele.

Hoje eu sei, por experiência própria que, de vez em quando, aparecem esses tipos de caras que exacerbam o seu direito de opinião, só que, por sorte da humanidade, a maioria não tem força para levar adiante suas idéias e cai no ridículo. Contudo, o mundo continua cheio desses caras que sempre encontram uma oportunidade para alardear alguma bizarria embutida em conceito, tese, ideologia ou seita que podem até obter ressonância momentânea, porém, na maioria dos casos, o tempo se incumbe de desacreditá-la.

A História registra esses casos desde quando os sumérios desenvolveram a escrita cuneiforme, por volta de 4000 a.C.. Já naquela época, teve um sabido que resolveu escrever a história de seu povo e, em um relato prenhe de sensacionalismo, disse que eles haviam sido criados e civilizados pelo deus anfíbio Oannes. Ele virou best sellers, ficou na lista dos mais lidos durante milênios e, até hoje, quando a arqueologia fala sobre aquele povo longínquo no tempo, nunca deixa de citar a sua obra. O nome dele ninguém conhece, pois ele não assinava o que escrevia.

De lá prá cá, sabe-se que muito maluco tentou enfiar o bedelho onde não era chamado e nem tinha competência para fazê-lo. No século passado, por exemplo, quiseram até nos impor exotismos como o fascismo, nazismo e integralismo, mas sem sucesso.  E as bizarrias continuam a proliferar, na mesma proporção do aumento e intensidade da sagacidade humana. Só que no caso do aumento do dia terrestre para 25 horas, como defendia o escritor espanhol, eu não tenho nada a opor, ao contrário, para mim tanto faz aumentar quanto diminuir o número de horas.

Assim como não sou obrigado a fazer mais nada em 24 horas, igualmente ficarei livre de qualquer imposição com o acréscimo, ou redução, de outros 60 minutos. Claro que estou falando de mim, pois não tenho procuração dos que continuam pensando no tempo como algo apenas para o trabalho, para “ganhar a vida”. Eu já cheguei ao estágio de não precisar adotar a fórmula “tempo é dinheiro” como imperativo de sobrevivência e não confundo mais tempo, trabalho e dinheiro como três aspectos de uma mesma realidade.

Sou um jornalista aposentado e, agora, só me submeto a uma obrigação: de vez em quando (repito, só de vez em quando), sempre à tardinha, escrever uma crônica despretensiosa aqui no blog, enquanto espero a hora de ir ao bar tomar minhas cervejinhas do dia. E não faço nada mais, nada menos, do que seguir à risca o que está registrado no meu DNA.

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Escrito por chicoflores às 14h54
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A conclusão é que não sei nada de nadica

Até por ignorância, mesmo, a gente nunca abre mão da opinião emitida, principalmente quando ela passa a ser contestada com veemência. Em casos como este, a primeira sensação que se tem é a de que o estão humilhando e que a vergonha irremediável será seu pouso certo. Assim, a primeira contestação será a de que não haverá outra opção a não ser dobrar-se diante da comprovação de uma sandice incontestável; ou não aceitar, em hipótese alguma, o contraditório e continuar batendo na mesma tecla.

É claro que tudo vai depender, também, do ambiente e das pessoas que estão à sua volta. Se houver mulheres em maior número e o opositor for homem, a gente chega às raias da impertinência para manter a opinião. Pode-se até ser ferino e mandar as suscetibilidades às favas, a ponto de transformar uma simples discussão num temporal de vitupérios capaz de azedar qualquer ambiente, terminando uma boa farra e comprometendo amizades. O pior de tudo é que, passado o frenesi, a gente se arrepende a conclui que fez uma burrada.  Comigo aconteceu muitas vezes e vai longe o tempo em que tudo começou.

Quando cursava as primeiras séries do primeiro grau, por exemplo, aprendi que a terra era redonda, porém achatada nos pólos. A minha professora na época era dona Ilma, de idade indefinida, rosto rosado e semblante alegre e agradável que me lembrava uma freira, e que usava uma laranja para nos explicar que nosso planeta era achatado nos pólos.

- Fessora, não seria melhor se fosse uma goiaba?

- Por que, uma goiaba, menino?

- Porque se for achatada em cima e em baixo é porque não tem bicho. Goiaba muito redonda tem bicho à beça.

Claro que de lá para cá evoluímos e o tal achatamento passou a caracterizar apenas cabeça de cearenses como a de Zeca Fagundes, um migrante de Fortaleza e parceiro de cerveja. Conheci Zeca logo assim que passei a morar em Jardim Camburi, Vitória (ES), e entrei pela primeira vez no Bar do Gaúcho, que já era seu ponto de longa data. Mas, não foi a semelhança de gosto pela cerveja que me aproximou dele, mas sua desenvoltura na abordagem de um tema que ele, pelo menos, à primeira vista, pareceu-me dominar.

- Chico, não sou religioso, ou seja, superticioso. Sou um hermetista.

De imediato, pude notar que Zeca era um ledor contumaz de publicações sobre o tema e que o grau de conhecimento dele era muito maior que o meu, que se baseava, somente, em umas poucas monografias superficiais lidas por imposições profissionais. Zeca já tinha lido até as traduções para o português de obras como o “Corpus Hermeticum” e a “Tábua de Esmeralda”, atribuídas a Hermes Trismegistus, um mestre do antigo Egito a.C, muito respeitado pelos esotéricos e metafísicos da atualidade.

Claro que sei que esses escritos bem antigos contêm os aspectos teóricos, filosóficos e teosóficos sobre a verdade do universo e da vida biológica, coisas negadas com truculência pelas religiões cristãs. Inclusive, milhares morreram nas fogueiras da Inquisição, na Idade Média, apenas por confessarem ou ter ouvido falar disso. E por isso, nunca interrompia Zeca quando ele, com uma argumentação caudalosa e cheia de citações de autores famosos garantia que “tudo é mental e o que chamamos de Deus é uma mente vivente infinita e universal”. O próprio universo, dizia meu parceiro de bar, “é simplesmente uma criação mental e tem sua existência na mente do que chamamos de Deus, onde vivemos, nos movemos e temos nossa existência.”

- Chico, se a gente pudesse se distanciar o suficiente para ver o universo apenas do tamanho de uma bola de futebol, o veríamos como um cérebro, que é a sua verdadeira forma e o que, na verdade, ele é.

Claro que eu quis contestá-lo, respaldando-me na precariedade do que eu sabia de física, química e matemática, mas como Zeca me olhava sorrindo um sorriso leve e cativante, daqueles sorrisos que só os humildes sábios têm, apenas o olhei e me calei, deixando-o falar.

- Chico, somos somente mente e tudo o que conhecemos só existe nela, inclusive o ambiente em que vivemos e a vida que levamos – assegurou-me, explicando que eu poderia pôr à prova o que ele dizia, apenas influindo nos meus estados mentais, como, por exemplo, fixando meus pensamentos só naquilo que eu gostaria ou queria que acontecesse.

- Chico, o mundo em que você vive foi criado, primeiramente, por sua mente – assegurou-me Zeca, despedindo-se, porque seu táxi  havia chegado e ele tinha horas para chegar em casa. “Chico, Margarida é minha mulher há 50 anos e eu conheço a fera que tenho.”

Não recusei o convite e garanti que o avisaria do resultado da experiência. Acordei no dia seguinte, uma quinta-feira, pensando fixamente em ganhar uma boa grana na loteria. Por toda manhã não pensei em outra coisa, a não ser em ir à loteca mais próxima e fazer minhas apostas na Quina e Lotofácil, que corriam naquele dia. E foi o que eu fiz, com duas apostas em cada teste.

Na sexta-feira, pela manhã, entrei no site da Caixa e conferi os resultados. Na Quina, sequer acertei um número. Porém, na Lotofácil, já no primeiro bilhete, constatei que tinha acertado 11 números. Imediatamente, telefonei para o Zeca Fagundes e o informei: “Negão, a coisa do pensamento já começou funcionar e já ganhei dois reais e cinquenta centavos na Lotofácil”.

- Seu prêmio, Chico, foi do tamanho e qualidade do seu pensamento. Pense grande Chico, pense grande – respondeu-me.



Escrito por chicoflores às 01h36
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A insustentável leveza da cera

 

Respeito todo tipo de opinião, estou sempre aberto ao diálogo e jamais me nego a ouvir o que me estiver sendo dito. Sou até passivo, quando alguém me expõe um ponto de vista sincero e sequer faço movimento de cabeça ou de olho para não perder o fio da meada. Com isso eu quero dizer que sou um bom ouvinte e jamais me arrependi de ser assim.

 

Tornei-me um bom ouvinte porque achei mais cômodo do que falar. Dava menos trabalho, poupava energia e, o que é mais importante, não criava atritos bobos e de conseqüências, às vezes, desastrosas. Eu ouvia... Ouvia... Ouvia... Sempre demonstrando interesse no que dizia meu interlocutor, sem interrompê-lo. Jamais quebrei o encanto de quem quer que fosse que, diante de mim, acreditasse ser o grande dono da verdade.

 

Aliás, diga-se de passagem, na maioria das vezes, eu até estimulava o cara a manter o monólogo, apenas acicatando-o com intervenções monossilábicas que jamais iam além do “e aí?”, “verdade!?”, “puxa!!!”, “sim, sim...”. Quando notava que ele estava exorbitando na arrogância, a ponto de estufar o peito e dizer que “todo aquele que pensava diferente era um filho da puta”, eu apenas sorria e me despedia.

 

Claro que houve exceções e sempre as haverá, já que, às vezes, eu estou de saco cheio por qualquer outro motivo e, portanto, invulnerável a sandices, toleimas, parvoíces e asneiras. Nessas ocasiões, inverto os papéis e, ao invés de ouvinte passivo, me transformo num agressivo orador. Aliás, dependendo do assunto, posso ser acrimonioso nos argumentos e peçonhento nas respostas, e sequer me dou conta do que estou dizendo.

 

Mas não foi assim que eu reagi, hoje à tarde, logo depois que eu acordei de minha deliciosa, reconfortante e revigorante soneca de depois do almoço, no sofá da sala, quando ouvi, claramente, um dos meus botões dizer que “tem muito tempo que esta sala não vê uma faxina... ”. E não vi nenhum motivo para não continuar sendo apenas um ouvinte passivo.

 

- Você não tem nada com isso, cara – retrucou, logo em seguida, um segundo botão, dos três que eu tenha na blusa do meu pijama.

 

- Eu tenho o direito dar pitaco em tudo que está dentro deste apartamento. Sei que Chico está aposentado, contraiu aversão ao trabalho e fez voto de ociosidade. Mas, manter a casa suja é desleixo – contra-argumentou o revoltado botão.

 

Simplesmente suspirei, espreguicei-me e segui para a cozinha, onde liguei a cafeteira, coloquei nela quantidade de água para três cafezinhos, o coador e o pó de café, e me postei ao lado, ansiosamente expectante, mas com a atenção voltada para meus botões. Aliás, já tem algum tempo que aprendi a dar-lhes ouvido e a partilhar com eles minhas preocupações, anseios e frustrações. Os venho usando como confidentes e conselheiros, e eles não me têm decepcionado.

 

Antes, porém, a totalidade de minhas ações de vida era apenas fruto de arrebatamento e jamais me passava pela cabeça a necessidade de sopesá-las antes de concretizá-las. Eu fazia tudo impulsiva e precipitadamente, e só me dava conta dos erros ou acertos dos meus atos ao enfrentar as conseqüências. Algumas vezes, obtive resultados plausíveis; já em muitas outras, quebrei a cara.

 

Ainda na cozinha, servi-me uma deliciosa dose de café, que sorvi saboreando sem pressa cada gole, acendi um cigarro e voltei para a sala. Sentei-me no aconchegante sofá que minutos antes acalentara minha soneca e iniciei uma avaliação severa e minuciosa daquele mais importante cômodo de meu apartamento, depois do quarto que é o indevassável santuário da minha ociosidade.

 

O resultado da avaliação deu ganho de causa ao meu revoltado botão. Na verdade, havia mais de duas semanas que minha sala não via uma faxina, nem mesmo uma simples passada de pano úmido. Havia poeira na mesa do computador; havia poeira no sofá a na poltrona; e o próprio piso de cerâmica não tinha mais brilho. Eu até pensei, em fazer uma boa e contundente autocrítica em voz alta, mas troquei-a por ações decisivas.

 

- Vocês estão certos! – disse para meus botões, fixando meu olhar no mais revoltado. – Está resolvido: vou fazer uma faxina... E não vou deixar para amanhã – assegurei, colocando mãos à obra.   

 

Primeiro, espanei a poeira dos moveis, depois iniciei a varrição da sala, afastando sofá, empurrando para lá e para cá a mesa do computador e, em seguida, passei pano úmido no piso. Demorei mais ou menos uns 30 minutos nessas três etapas da limpeza. E como não queria perder o pique de trabalho, logo após a secagem, que foi muito rápida ajudada pelo vento Nordeste que entrava pela porta principal do apartamento e saia pela varanda com intensidade, passei a cera e dei o brilho. Ficou bom.

 

Confesso que não foi uma tarefa árdua, a ponto de me exaurir ao extremo. Todavia, para um aposentado de radicais convicções sobre ociosidade, não deixou de ser um trabalho duro. Mas, mesmo assim, não me senti fora do meu contexto. Percebi até que, das quatro tarefas de uma faxina, a mais leve é a do enceramento do piso. Todavia, apesar da leveza, não chegou a ser mais estimulante que as demais. Por isso, deixarei passar mais uma semana para repetir a façanha.

 

E como o relógio do meu computador está marcando 18h15m, tomarei um banho e depois irei ao bar do Coreano, para comemorar o aniversário de Vitória (ES), tomando “umas” com isquinhas de salmão frito e molho tártaro.



Escrito por chicoflores às 18h30
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Solidariedade é coisa de pobre

 

Eu nunca me preocupei em avaliar alguém antes de assumi-lo como amigo. Jamais averigüei procedência, origem e sequer me preocupei com a condição social de quem de mim se aproximava de coração aberto. Jamais fiz isso e sempre apertei mão daquele que, com sorriso espontâneo e me olhando nos olhos, oferecia-me a mão para apertar. Era como se eu estivesse diante de um reencontro e não apenas de uma casualidade.

 

Sempre fui assim e assim continuo, principalmente agora, pois, como velho e com mais experiência da vida, me tornei apegado a essa forma de ver o mundo e os meus circundantes, porque comprovei que ela é abalizada e representa a grande verdade. É como se eu tivesse chegado à conclusão de que o mundo não só me pertence, mas também, a todos que de mim se aproximam, já que cada um desses é portador de uma importante mensagem para mim.   

 

Na verdade, jamais levei em conta as premissas do pragmatismo da psicologia que impõe a aceitação de que a pessoa é um conjunto analítico da personalidade que pode ser definida como a soma resultante do temperamento e do caráter. Só que eu não acho que é isso e tampouco acredito que a integridade humana seja resultante das tendências genéticas e constitucionais, assim como o caráter seja um mero resultado do aprendizado dentro da estrutura familiar.

 

Isso prá mim é balela e estou mais propenso a aceitar aquela teoria de Jackson Lima, segundo a qual, o temperamento é a tendência herdada do indivíduo para reagir ao meio de maneira particular e o caráter é o conjunto de formas comportamentais mais elaboradas e determinadas pelas influências ambientais, sociais e culturais que o indivíduo adota para adaptar-se ao meio. Ou seja, na opinião de Jackson, se um cara está fudido, desempregado, sem perspectiva de subsistência digna e com uma família para sustentar, esse cara vai apelar para o que der e vier para contornar seu problema.

 

O velho Jackson era um dos jornalistas mais bem preparados e versáteis que eu havia conhecido. Sabia de tudo, de psicologia, sociologia, ciência política, ciências aplicadas e era uma espécie de doutor em metafísica. Ele foi o jornalista mais completo com quem eu, de verdade, tiver a oportunidade de trabalhar e conviver. Eu até chego à conclusão de que, se não fosse o talento profissional de Jackson como diretor de redação, durante vários anos, de A Gazeta aqui de Vitória (ES), o jornal teria cedido a liderança do mercado para a concorrência, já nas décadas de 60 e 70.

 

Eu me lembrei há pouco de Jackson Lima e de suas teorias sobre o comportamento humano, ao ser abordado por um dos vários moradores de rua que habitam a pracinha da Bocha, aqui em Jardim Camburi, Vitória (ES), que se aproximou de mim, quando eu me dirigia ao barzinho Laranja Mecânica, e me pediu dinheiro. Ele me abordou de maneira educada, mas peremptória, como se estivesse me dando uma ordem.

 

- Cidadão, me dê um dinheiro, por favor.

 

- Pô cara, eu só tenho esses vinte reais que reservei para as minhas cervejinhas ali no Laranja Mecânica. Mas, leva.

 

Ele estendeu a mão, pegou a nota de vinte reais, olhou para mim e acrescentou: “Espera um pouquinho. Vou ali na farmácia e volto rápido.”

 

Em menos de cinco minutos ele voltou. Sorriu um sorriso desdentado, mas radiante, devolveu-me quinze reais e pediu: “Tome alguns copinhos por mim, tá?”



Escrito por chicoflores às 22h51
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O vulcão da Islândia pode garantir uma boa ”happy hour”

 

Tem um tampão que não me meto em polêmicas sobre qualquer assunto e pretendo continuar assim, o que não quer dizer que me tornei avesso a discussões de idéias que podem até ser simplórias, mas que sirvam para alguma coisa, como a qualidade das cervejas, por exemplo. Mas, sempre que possível, prefiro evitá-las, pois nesta fase da vida, acho bem mais confortável e saudável guardar minhas opiniões apenas para mim. No máximo, admito retrucar meus botões, quando estão ultrapassando limites e tentando impor posições, o que eu jamais permitirei.

 

Na verdade, atualmente, eu prefiro apenas ouvir, e presto uma atenção de padre em confessionário ao que me está sendo dito, como fiz agorinha há pouco, com meu vizinho Fernando, que encontrei na garagem do prédio, falando sozinho. Como ele gesticulava e vociferava sobre não sei o quê, por educação perguntei o que estava se passando, pois, de imediato, ocorreu-me a hipótese de uma briga com Mariana, sua mulher, que o vinha mantendo de rédeas curtas, nos últimos tempos.

 

Se fosse por causa das crises de ciúme de Mariana, eu só iria aconselhá-lo a ter paciência, dizendo apenas: “Negão, mulher que tem ciúme da gente é porque gosta da gente”. Não diria nada mais e retomaria meu rumo, que inicialmente era o bar, para tomar a primeira cervejinha gelada do dia, como faz todo aposentado feliz como eu. Já estava até preparado para as lamentações do Fernando, tipo: “Chico, a Mariana está me tornando um cara infeliz... Nosso casamento acabou”... E coisa assim...      

 

 Todavia, me surpreendi quando ele, com as mãos nos meus ombros, sentenciou: “Chico, cheguei à conclusão: o cara que votar em Serra, Ciro ou Marina, é um filho da puta que não gosta do Brasil”.

 

"Estou no lugar errado, na hora errada", pensei com meus já apavorados botões, enquanto Fernando continuava me encarando, como que pedindo pelo amor de Deus uma resposta imediata. Seus olhos me fixavam e pareciam implorar que eu retrucasse, no mínimo, com anátemas tão contundentes quanto sua sentença. E, por mais que eu tentasse me desviar daquele olhar inquiridor, mais me sentia preso a ele.

 

- Droga – disse baixinho, desdizendo aquele momento e concluindo que, se eu o contraditasse, criaria uma polêmica inútil e desgastante, a ponto de transformar a primeira cerveja da noite em um intragável purgante diarrêico. “Não vou comprometer minha “happy hour” com uma discussão tola”, conclui, apontando para uma nuvem densa que pairava sobre nosso bairro Jardim Camburi (Vitória-ES).

 

- Está vendo aquela nuvem bem densa em cima da gente, Fernando? São cinzas do vulcão da Islândia que também estão chegando até nós. Garanto que o Aeroporto de Goiabeiras já está fechado.

 

- Verdade, Chico? Vou mostrar a Mariana - disse ele, tirando as mãos dos meus ombros, e subiu correndo para o seu apartamento do segundo andar.

 

E eu retomei o meu rumo ao bar, aliviado, leve, garboso, altaneiro, feliz e em paz com o mundo, para tomar minha primeira cerveja da noite.   



Escrito por chicoflores às 21h26
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Com cinco latinhas de cerveja pode-se mudar o futuro de alguém

 

Eu entendo que a melhor estratégia de vida futura resultará sempre das ocorrências geradas no momento presente, pois é nele que aplicamos mais energia e concentração. Nossas ações só existem nele, assim como as possibilidades de atenuação e/ou agravamento das conseqüências do que foi gerado no passado. Também, é nele que moldamos e sedimentamos as bases da nossa vida no futuro, mantendo ou mudando as suas perspectivas.

 

Aqui prá nós, sou sincero quando afirmo que dou muita importância ao meu momento presente e por isso o curto intensamente. (Aliás, foi por isso que quebrei a cara com muitas mulheres que eu amei. Todavia, essa é outra história). Mas isso não quer dizer que me esqueço do passado e/ou negligencio o futuro. Ao contrário, sempre fico de olho nos dois, para não quebrar o importante elo entre esses três únicos momentos da vida da gente. Ou seja, jamais minimizo o valor de um em benefício do outro e, assim, por diante.

 

Digo a verdade, quando afirmo que não me sinto preso ao passado e, tampouco, vivo em função do que poderia, ou deveria, ser meu futuro. Sou um pragmático por excelência e nunquinha cometeria a heresia de mudar a ordem natural das coisas. Com isso quero dizer que acredito piamente que nada acontece sem que uma causa a provoque e que sou um cara prático demais para me envolver ou me submeter a qualquer tipo de regra que não seja a minha forma de encarar a vida.

 

Quando eu, por exemplo, acordo com uma ressaca das brabas, daquelas que causam abulia profunda e só não tiram a vontade de ficar na cama, rememoro o passado para tentar, no mínimo, descobrir o que bebi na noite anterior. E sempre descubro que, ao invés de ter tomado só uma generosa dose de pinga como guia da primeira cerveja, havia tomados três. Feita a constatação, uso o presente para me curar com sucos de fruta e saladas o dia todo e, assim, fico pronto para chegar ao dia seguinte, ao futuro, inteiro para outras geladinhas.

 

Eu provo, portanto, que não debocho da simbiose “passado+presente+futuro”, mas, sim, que a respeito a ponto de pautar minhas ações no presente com base na experiência do passado e sem perder de vista as perspectivas do futuro. Aliás, não sou maluco a ponto de me comportar diferente em relação às premissas de uma contínua vida feliz. Tanto assim que, sempre que tenho oportunidade, faço questão de declarar que sou um cara ligado ao meu ontem e preocupado com meu amanhã.

 

Agora há pouco, mesmo, quando passava pela pracinha da Bocha, aqui em Jardim Camburi (Vitória-ES), vindo do bar “Laranja Mecânica”, onde tomei algumas latinhas de cerveja, forrando-me para a seresta no “Butekos”, encontrei Zeca Bonella. Fiquei surpreso, pois eram mais de 21 horas e eu sabia que ele jamais saia de casa depois das 18 horas, e por isso me apressei em saber o que tinha acontecido.     

 

- Nada, não, Chico. É que briguei com Joana e não pretendo voltar para casa. Vou passar a noite aqui, meditando sobre o que vou fazer – respondeu-me.

 

- Zeca, isso não é motivo para você dormir na rua – disse eu de início, em tom conciliatório, enquanto tentava encontrar melhores e mais inteligentes argumentos para convencê-lo a ir para casa. – Além do mais, você e Joana são casados há mais de 50 anos e os dois já estão velhos demais para viverem separados - acrescentei, mesmo sabendo que tinha dito uma bobagem. Porém, não me dei por vencido.

 

- Passar a noite na rua, Zeca, para um cara da sua idade, é muito perigoso.

 

- Tem perigo não, Chico. Estou preparado para o que der e vier.

 

- Tudo bem, mas vou avisá-lo que, daqui a pouco, o movimento de pessoas acabará, o lugar ficará deserto e você estará exposto, no mínimo, à sanha desses pivetes que dormem nos bancos aqui da praça.

 

- Saberei enfrentá-los, Chico – disse ele secamente

.

- Mas não é só isso, Zeca – continuei – tem ainda a equipe do Serviço Social da Prefeitura que pode confundi-lo com um morador de rua e levá-lo, até mesmo à força, para um dos centros de triagem da cidade.

 

Dito isso, esperei uma resposta, mas Zeca, desta vez, ficou em silêncio, o que eu aproveitei para acrescentar outro argumento atemorizante, um pouco mais soturno do que o anterior:

 

- Alguma patrulha policial pode passar aqui, confundi-lo com um bandido, desses que estão sendo procurados, e levá-lo para qualquer delegacia, onde, se você tiver sorte, será pouco molestado pelos outros presos e passará apenas uma noite de cão. Isso se você tiver sorte, pois nesses casos, o desfecho é imprevisível, ainda mais sendo um sábado, à noite”.

 

Como ele e me dirigiu um olhar interrogativo, mas continuou calado, resolvi ir adiante e perguntei: “Este é o futuro que está preparando para você, Zeca? E, para quem já tem 75 anos de idade, não vai ser um futuro bonito, não”.

 

- Chico, você está dizendo besteira, mas foi bom você falar em futuro, pois me lembrei que prometi ao meu neto levá-lo amanhã, naquele parque temático que tem em Jacaraípe. Só por isso vou prá casa, pois preciso acordar bem cedo.

 

Zeca foi para casa e eu segui, feliz e tranqüilo, em direção ao Butekos, para curtir a seresta, mas já pensando na minha futura ressaca.



Escrito por chicoflores às 00h00
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Cerveja é melhor do que futucar diabo com vara curta

 

Não sou contra e nem a favor de nada. Não tenho mais qualquer obrigação de me definir por isso ou por aquilo e aderir a tal ou qual ponto de vista. Em termos de opinião eu respeito todas, venham de onde vierem e partam de onde partirem. O que me interessa, neste gratificante e feliz estágio de vida, é gozá-lo ampla e profundamente, sem dar a mínima para o contraditório, o que quer dizer: estou na minha, o resto que fique na dele.

 

Só não defino essa minha maneira de ser como egoísta. Não e não. Concebo-a apenas como o resultado lógico de um enorme acúmulo de experiências de vida e vivência, durante 68 anos cravadinhos. Na verdade, ao longo desse tempo, aprendi a jamais tentar mudar pessoas, impor minhas opiniões e/ou me submeter bovinamente a conceitos, filosofias, ideologias e dogmas religiosos. Vivo a vida como acho que deva ser vivida.

 

Tenho minha opinião firmada sobre o que me cabe, ou não, fazer, e minha visão de vida é substantiva, pois só a mim diz respeito. Vejo-me como uma unidade e é como uma unidade que agora traço minha vivência. Também, passei a conceber a minha vida apenas como rito de passagem e hoje me comporto como um alegre e feliz turista. Não azucrino ninguém e nem tampouco me deixo azucrinar por quem quer que seja.   

 

Foi isso que eu disse ao velho Quim, hoje à tardinha, quando o encontrei em frente ao restaurante Calu, indo para um supermercado aqui do bairro. “Quim” é o apelido de Ibrahim, um "setentão" neto de imigrantes árabes que ganhou a vida como “homem de negócios”, ao longo de mais de 60 anos, até conseguir um pequeno patrimônio e se aposentar. Mesmo assim, ainda que por puro instinto, ele não perde oportunidades.

 

Dias atrás, por exemplo, quando conversávamos na pracinha da Bocha, ele me ofereceu um relógio de pulso Omega, antigo como ele e que, segundo dizia, era folheado a ouro. Recusei, claro, dizendo-lhe que eu não mais vivia em função de horas. “Foi-se o tempo, meu velho Quim, em que eu era escravo de coisas como essa”, completei, perguntando por que ele queria vender uma jóia tão bonita que me pareceu ser relíquia de família?

 

- É que eu quero comprar uma bicicleta para meu neto que aniversaria sábado, sem ter de meter a mão no bolso. Entendeu, Chico?

 

Entendi, sim, pois conhecia Quim há muito tempo e invejava o seu talento para negócios. Nas vezes em que eu o encontrei, antes da velhice chegar e a aposentadoria se impor, sempre o via comercializando algo. Ou estava vendendo um carro para comprar um terreno; ou um terreno para comprar uma casa que logo venderia para comprar um ponto comercial, que depois venderia para comprar outra coisa... e assim por diante.

 

- Num certo domingo, Chico, passeando com a mulher e os filhos, até Domingos Martins, entrei numa granja à margem da rodovia, comprei mil galinhas que na segunda-feira coloquei num caminhão e levei para o Rio de Janeiro, onde vendi tudo rapidinho com um lucro superior 250% - disse-me Quim, certa vez, quando se vangloriava dos seus feitos como homem de negócios.

 

Esse é o velho Quim a quem, como eu disse no início desta historinha, expliquei minha compreensão da vida, quando ele me perguntou se eu o acompanharia ao templo de uma seita satânica que seria inaugurado aqui em Jardim Camburi (Vitória-ES).

 

- Chico, vamos apenas por curiosidade – argumentou, com um sorriso maroto e olhar oblíquo, como se fosse um menino diante da perspectiva de uma memorável travessura.

 

- Não vou, mas o convido para tomar umas cervejinhas, agora, no bar do Coreano.

 

- É prá já Chico. Sua idéia é brilhante e melhor do que futucar diabo com vara curta.



Escrito por chicoflores às 19h22
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Hoje, encontrei um cara em débito com Platão

 

A única restrição que faço ao filósofo grego Platão é motivada pela invenção do “amor platônico” que, na minha humilde avaliação, não passou de uma lamentável perda de tempo sem tamanho. Acho que ele exorbitou na criatividade filosófica, ultrapassou os limites do "filosoficamente correto" e pensou que estava elaborando um conceito extraordinário, diferente, chamativo e de aceitação imediata pela opinião pública da época. 

 

Creio que Platão acreditava piamente que sua nova idéia teria apoio e adesão incondicionais e se transformaria em regra básica do relacionamento sexual. Como conseqüência, ele acumularia mais pontos positivos na renhida disputa de melhor filósofo da Grécia e se alçaria à condição incontestável de grande mestre. Por sorte, ninguém deu bola para a novidade e todo mundo continuou amando como a natureza ensinara.

 

Hoje, posso dizer que fiquei contente pelo insucesso de Platão com a sua invenção do “amor platônico”.  E estou contente porque, se a novidade tivesse vingado naquela época, o índice de natalidade humana baixaria a zero e eu não estaria aqui hoje, 2.500 anos depois, escrevendo essas bobagens e degustando a primeira latinha de cerveja bem gelada que será seguida de outras, até me sentir pronto para dormir e sonhar os mesmos sonhos sonhados pelos anjos de primeira hierarquia.

 

Platão e seu malfadado amor platônico entraram nesta história por causa de Raimundinho, um viúvo de 75 anos de idade, ex-contador da Vale do Rio Doce agora aposentado, morador aqui de Jardim Camburi (Vitória-ES), que eu não via há quase dois meses. Encontrei-me com ele, anteriormente, na feira livre do bairro, dizendo-se muito preocupado e que gostaria que eu o aconselhasse. De imediato tentei me desvencilhar da incumbência, pois nunca me atrevi a dar conselhos a ninguém, por entender que a vida de cada um é exclusiva e independe de interferências de terceiros.

 

- Chico, você é jornalista, correu o mundo e tem muita experiência de vida – dizia ele, gesticulando e me olhando nos olhos. – E se existe alguém que pode me dizer o que fazer é você Chico – completou, como alguém em grandes apuros, ansiando por uma resposta compensadora. Concordei e dei cordas, perguntando do que se tratava.

 

- Chico – continuou ele – minha faxineira está me atentando. Todo sábado, ao invés de se dedicar à limpeza do meu apartamento, ela fica me dando dicas de que quer me levar para a cama.

 

- Isso é normal, Raimundinho – respondi, acrescentando:- É que ela vê em você um "setentão" enxuto e crê que você ainda tem vigor de macho sexualmente ativo.

 

- O problema é que ela é muito jovem, Chico, tem 20 aninhos, já está descasada e é uma mulata de um corpo divinamente perfeito. Coisa, Chico, de virar a cabeça de qualquer um.

 

- Tudo bem cara! Você é viúvo e sem filhos para aporrinhar. E se, de verdade, está a fim, vá em frente, assuma a menina e reze para o pau não decepcionar – disse-lhe eu.

 

- Mas, Chico, sou 55 anos mais velho que ela e já estou muito mais prá amor platônico.

 

- Então, Raimundinho, diga que você vai passar uns meses na casa do seu irmão, em Porto Seguro, na Bahia, pague-a o equivalente a uns três meses de faxina e ela ficará agradecida e o esquecerá num piscar de olhos.

 

- Valeu o conselho, Chico – disse ele, se despedindo.

 

Depois daquele dia, não vi mais Raimundinho e até pensei que ele tivesse, mesmo, ido para Porto Seguro. Reencontrei-o hoje de manhã, em frente à padaria “Pão Chic”, e dele me aproximei. Senti frieza no seu cumprimento, como se eu fosse a última pessoa no mundo que ele queria encontrar, mas, não liguei e tentei puxar conversa. Mencionei o calor intenso dos últimos dias e disse que não me surpreenderia se as elevadas temperaturas continuassem.

 

Como suas respostas eram monossilábicas, resolvi encerrar de vez o papo e perguntei-lhe se tinha conseguido se livrar da fogosa faxineira.

 

- Está maluco, Chico? Está achando que sou radical e precipitado como você? Ainda vou pensar muito no assunto, antes de tomar alguma decisão – respondeu-me de forma ríspida, demonstrando ter ficado ofendido.

 

Eu sorri, me despedi dele e murmurei apenas para meus botões ouvirem: - Se vivo fosse, o velho e bom filósofo Platão ficaria satisfeito, orgulhoso e realizado.



Escrito por chicoflores às 21h24
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