Blog de chico.flores

24/11/2009

Papo sério de ex-aviador com morcego em vôo de risco

 

Não é minha a frase “quando o homem aprender a respeitar até o menor ser da criação, seja animal ou vegetal, ninguém precisará ensiná-lo a amar seu semelhante". Também não sei de quem é, apesar de ter procurado bastante pelo seu autor na internet. Nem mesmo tive sucesso ao perguntar à dona Janete, moradora aqui do bairro e que faz parte da Associação Protetora dos Animais, pois ela sequer a tinha ouvido em toda sua vida.

 

Fiquei na ignorância da autoria, mas me emocionei quando a li hoje pela manhã, num site de defesa animal. Achei-a tão realista que até a classifiquei de máxima filosófica de profundidade e amplitude imensuráveis, e a coloquei entre as sentenças irretorquíveis já pronunciadas por alguém, ao longo de séculos. É inteligente, tem sentido, reflete a realidade, está de acordo com as leis naturais e, irremediavelmente, estimula a reflexão.

 

Se minha precária formação filosófica não tivesse respaldada em ensinamentos marxistas, por certo eu classificaria de “dogma” a frase que me emocionou. Faria isso sem pestanejar, mas não posso, pois no fundo do meu inconsciente, ainda reverberam conceitos doutrinários, por exemplo, como o do saudoso sábio Mão Tse Tung, que dizia: "A bosta de boi é mais útil que os dogmas, pois serve para fazer estrume".

 

Tudo isso vem a propósito de uma visita inusitada que tive hoje de madrugada. Eu havia dormido, depois de umas quatro garrafas de cerveja ouvindo músicas celtas cantadas por Enya, com a porta da varanda do quarto aberta, pois fazia calor e uma agradável aragem de vento Nordeste amenizava a temperatura. Estava dormindo, mas um ruído frenético de bater de asas dentro do quarto me despertou.

 

Acendi o abajur da cabeceira da cama e me deparei com um assustado morcego em vôo de risco, sem rumo e controle algum, dentro do quarto. Deslocava-se rápido de um lado para outro, mas sempre se chocava com as paredes sem encontrar a porta aberta, por onde, acredito, havia entrado. Eu fiquei o mais quieto possível, torcendo para que animal, que eu sabia ser um dos excelentes piloto criados pela natureza, se safasse.

 

O drama do morcego - e, diga-se de passagem, meu também – durou uns cinco minutos, chegando ao ponto de eu, achando que ele tivesse tido uma pane de instrumentos que cegara o seu radar, me prontificasse a ajudá-lo. Devagar, fazendo movimentos bem lentos, peguei um dos travesseiros, tirei a fronha e esperei o animal passar perto de mim. Dei sorte na primeira tentativa e o capturei, respirando aliviado, por mim e por ele.

 

Ainda dentro da fronha consegui agarrá-lo de um jeito que não o machucasse, o desenrolei, o encarei e vociferei em voz alta: “Filho da puta, nunca mais entre em casa de humanos, pois você pode ser morto”. E, enquanto ele me olhava fixamente, como se entendendo o que eu dizia, completei: “Vou soltá-lo, seu merda, mas de agora em diante, antes de decolar, também cheque os instrumentos de vôo, porra!!!”.     

 

Levei-o até a varanda, olhei-o pela última vez e, constatando que ele me parecia tranqüilo e pronto para um vôo visual e sem radar até sua toca ou ninho, soltei-o. Ele se foi e eu voltei a dormir, com a certeza de que havia feito uma boa ação... Uma boa ação não só em relação a ele, mas também a mim, pois o desastrado morcego me fez relembrar de muitos sufocos que eu igualmente passei quando ainda voava.


Escrito por chicoflores às 22h16
[] [envie esta mensagem] []


20/11/2009

Sinceramente, eu não preciso da Bíblia

 

Tem uma coisa em que minha divina preguiça não interfere, mesmo que ela esteja em seu auge, como naquele gostoso furor da negação de tudo, inclusive de coçar a frieirinha do dedão do pé. Nesse momento, mesmo que nenhum impulso elétrico estimule algum nervo de qualquer região do meu corpo, o hábito se impõe e eu me vejo cedendo à tentação de enrijecer a musculatura e sair para a caminhada do dia.   

 

Digo com toda sinceridade que faço isso sem qualquer constrangimento por estar negando, só nesse caso específico (claro!), minha atual filosofia de vida. Sequer penso em estar ferindo a coerência e deitando por terra uma estrutura de caráter bem concebida. Inclusive, nem mesmo me arrependo do desgaste de energia e do tempo perdido nessas andanças sem rumo pelas ruas do bairro onde moro.

 

Só sei que faço, diariamente, o que qualquer outro preguiçoso acharia um despautério sem tamanho. E olhem que não sou um preguiçoso comum e nem concebo a preguiça como uma mera vontade de não fazer nada. Isso porque estou filosoficamente bem respaldado e meus argumentos vão muito mais além do que a simplória conceituação teológica dogmatiza. Para mim, ser preguiçoso é estar de bem com a vida e com Deus.

 

Eu, por exemplo, sei que nos primórdios dos tempos, usavam-se dogmas aparentemente divinos para estimular o escravo a trabalhar sem parar, dez, doze, quinze e até dezoito horas por dia. Era dito para esses pobres coitados, como está na Bíblia, que “a preguiça faz cair em profundo sono e o ocioso padecerá de fome”. (Eclesiaste 10.18). O cara parava porque desmaiava e era substituído.

 

Alias, a escravatura usou eficientemente a Bíblia para submeter povos inteiros à dominação escravocrata por muitos séculos. No Brasil, mesmo, usaram-se até padres católicos na doutrinação dos negros, nas fazendas, sobre o “grande pecado da preguiça”. A idéia era colocar Deus contra os negros e fazê-los trabalhar sem descanso para buscarem a remissão do pecado de gostar, por exemplo, de uma soneca pós-almoço.          

 

Portanto, quando eu falo sobre minha preguiça, não estou cometendo heresia, me chocando contra desígnios divinos e nem falando pelos cotovelos. Estou apenas dizendo que eu me tornei um preguiçoso porque preguiça não é defeito. Ao contrário, é uma dádiva que a aristocracia, em qualquer de sua época, sabe muito bem e assim a desfrutou e ainda a desfruta até hoje, basta entrar nos seus domínios para constatar.

 

A coisa vem de muito longe: na Grécia antiga, os cidadãos eram os nobres que só se ocupavam da defesa e da administração da comunidade, devendo, portanto, estarem livres todo o tempo para velar, com a sua força intelectual e física, pelos interesses da República. Os encarregados de todo o tipo de trabalho eram os escravos que tinham de cuidar de tudo que exigisse força física. E não livravam nem o preparador de Kurabie ou Moussaká.

 

Também os romanos só conheciam duas profissões nobres e livres: donos de fazendas e ser militar. Viviam por direito à custa do Tesouro, sem precisar prover a subsistência através de nenhuma das “sordidae artes”, como designavam qualquer tipo de trabalho físico que pertencia por direito aos escravos. O senador Brutus, por exemplo, para levantar o povo, acusou o imperador Tarquínio de ter feito os artesãos e os pedreiros cidadãos livres.

 

Como eu disse, eu provo por a+b que preguiça é uma inerência sublime de castas que serão sempre cercadas de privilégios, sem precisar fazer nada ou dar duro para viver. Mais ou menos assim como eu que, agora aposentado, me dou ao luxo de ser preguiçoso em tempo integral, só reservando uma hora diária para fazer minha caminhada. As 23 horas restantes do dia eu passo cultuando o ócio, sem precisar usar a Bíblia. 


Escrito por chicoflores às 23h19
[] [envie esta mensagem] []


12/11/2009

Agora, sim, eu tenho minha espreguiçadeira

 

Quando Suslof, um dos principais teóricos marxistas da ex-URSS, perguntou ao poderoso premier Stalin, trinta minutos antes de ser iniciada uma importante reunião do Comitê Central da União Soviética, naquela tarde de maio do ano de 1938, por que ele acabara de condenar à prisão perpétua, na Sibéria, um importante membro do Governo, - um tal de Mikail Serguei Ivanovith -, recebeu como resposta: Я ненавижу ленивый. Они вредны для социализма. O grande teórico ficou apavoradamente pasmo.

 

Também pasmo ficou o próprio Mikail, que não teve nem tempo para uma explicaçãozinha rápida tipo “fui mal interpretado, eu só queria permissão para tirar minha sonequinha da tarde, antes de ir para a reunião. É um hábito antigo”... Aliás, mesmo que tentasse se explicar, ninguém o ouviria, pois todos que estavam no gabinete, naquele momento, sumiram num piscar de olhos, depois da sentença do chefe. Até Nikita Kruchov, que sucederia Stalin anos mais tarde, também saiu de fininho.

 

O Pravda, jornal oficial, publicou a decisão de Stalin como manchete de primeira página. O título era: “Camarada Stalin livra a Pátria do Socialismo da ação nefasta de preguiçosos”. O lead da matéria asseverava: “Numa ação corajosa e histórica, o primeiro ministro da União Soviética, o querido Camarada Josef Stalin, iniciou ontem uma guerra sem trégua contra os preguiçosos, uma corja que tem em mente apenas boicotar a construção do socialismo”. 

 

Mesmo alimentando uma sentida pena histórica de Mikail, estou contente por não ter sido um aposentado vivendo naquela época na ex-URSS. Como me tornei aberta e escancaradamente um adepto da ociosidade e apologista da sonequinha da tarde, com certeza minha sentença não teria sido a da deportação para a Sibéria, mas, sim, a da imediata execução.

 

Bom, mas como sou um feliz aposentado brasileiro do Século 21, resta apenas deplorar o acontecido com um adepto da soneca da tarde, nos tempos do stalinismo na ex-URSS. Nada mais do que isso posso fazer sobre o caso Mikail. Porém, estou pronto até para pegar em armas se o Governo brasileiro continuar insensível às reivindicações e virar definitivamente as costas para os aposentados desta nação.

 

E por falar em reivindicação, há tempos venho sonhando com uma espreguiçadeira, dessas mais modernas que são acolchoadas e têm mecanismos de controle de inclinação. Tinha visto várias e de diversos tipos, mas nenhuma havia me agradado, pois estavam fora dos padrões por mim concebidos. Mas isso até ontem, quando encontrei, numa pequena loja de móveis aqui do bairro, a tal que eu almejava.

 

Hoje mesmo, tirei uma reconfortante soneca de quase uma hora aconchegado nela. E não vejo a hora de acabar esta crônica desinteressada e sem qualquer valor literário para voltar a me sentar na minha nova aquisição e apreciar o final de tarde como um  preguiçoso irremediavelmente convicto. Pronto, acabei. Viva!!!  


Escrito por chicoflores às 19h49
[] [envie esta mensagem] []


02/10/2009

O Rio de Janeiro não me deve nada

 

Aceitarei e dobrar-me-ei humildemente às críticas que me vierem a ser feitas por haver me mantido distante das manifestações de apoio ao Rio de Janeiro para sediar os Jogos Olímpicos de 2016. Não direi nada em minha defesa, não vou retrucar ou tentar me explicar, pois as entenderei como admoestações legítimas.

 

Na verdade, estarão cheios de razões aqueles que, apontando-me o dedo indicador, vociferarem que eu poderia ter feito muita coisa em favor da candidatura carioca, antes da decisão desta sexta-feira (2) do Comitê Olímpico, em Copenhague, Dinamarca. E acharei até que meus possíveis críticos estarão sendo parcimoniosos.

 

Omiti-me e sou réu confesso. Eu poderia, ao longo de todo este ano, ter desenvolvido um trabalho persistente de convencimento da importância do Rio de Janeiro para palco das Olimpíadas e mostrado, com argumentos abundantes, caudalosos e irretorquíveis, que os demais concorrentes não estavam à altura da “Cidade Maravilhosa”.

 

Inclusive, uma imensa estrutura sempre esteve à minha disposição para desempenhar o meu papel de apologista do Rio e não a usei. Eu poderia ter usado os bancos das pracinhas da "Bocha" e da "Igreja Católica", aqui de Jardim Camburi (Vitória-ES), para discursar, pelo menos três vezes por semana, e conclamar os moradores do bairro a se unirem numa única energia em favor do Rio.

 

Também, poderia ter pedido a Dino Grácio - e ele não me negaria -, umas boas idéias artísticas para panfletos que eu distribuiria aqui no bairro, nos dias de feira-livre. Igualmente, poderia ter enchido o “Blog do Chico.Flores” de crônicas enaltecendo a terra carioca como o melhor lugar do mundo e, para reforçar, deveria pedido o apoio do "Blog Donoleari".

 

Enfim, perdi a oportunidade de ser hoje parabenizado pelos meus esforços para a vitória do Rio de Janeiro. Mas, vou tentar me redimir, colocando-me à disposição do Comitê Olímpico Brasileiro como atleta, com chances de medalha de ouro, na categoria caminhada depois do almoço, na qual eu sou mundialmente imbatível.  

 

Sei que essa modalidade não é disputada, mas como a Olimpíada do Rio de Janeiro será a primeira na América Latina, desde o ano 776 a.C - portanto uma novidade milenar - acho plausível adicionar-se uma novidade aos Jogos. Acredito que dependerá apenas de vontade política para que eu vire um atleta olímpico.

 

Digo vontade política porque saúde eu tenho. Para um cara com 67 anos como eu, não significa anormalidade ter pressão arterial oscilando entre 15 e 17 por 9, crises periódicas de hemorróidas e uma irremediável ciclotimia. Portanto, para minha idade, estou fisicamente apto e não há nenhum empecilho.

 

E como já são mais de 18 horas, vou ali no barzinho “Laranja Mecânica” treinar um pouco de levantamento de copos. Fui....


Escrito por chicoflores às 18h40
[] [envie esta mensagem] []


25/09/2009

A prática de exercícios físicos não cura hemorróidas

 

Está cientificamente provado que os exercícios físicos realizados de forma regular estimulam o sistema imunológico, ajudam a prevenir doenças cardiovasculares e diabetes tipo 2, moderam o colesterol e previnem a obesidade. Também melhoram a saúde mental e o cara passa a ter uma vida saudável e feliz e a rir de tudo... Até das dívidas. 

 

Aliás, a prática de exercícios físicos sempre integrou a existência humana, mas sofreu mudanças à medida que se processava a evolução cultural dos povos. Assim, a sua orientação no tempo e no espaço manteve-se em sintonia com os sistemas políticos, sociais, econômicos e científicos vigentes em cada etapa das sociedades humanas.

 

Na Pré-História, por exemplo, havia a preocupação do desenvolvimento da força bruta, sob o ponto de vista utilitário-guerreiro. Quem não era forte o bastante sofria mais que bode embarcado. Já na Antiguidade, os exercícios físicos focavam o aspecto somático, harmonia de formas, musculatura saliente e o corpo esbelto. Cultuava-se a fase anatômica da educação física.

 

Na Grécia antiga, ter corpo esbelto era moda entre os homens e quem quisesse se destacar e ter oportunidades na sociedade tinha de malhar correndo muito, levantando pesos, lançando dardos, pulando obstáculos ou nadando grandes distâncias. Se o cara fosse raquítico, coitado, virava marginal e tinha de abaixar a cabeça quando passava um Hércules, um Aquiles ou um Teseu, que eram as maiores celebridades da época. (As más línguas diziam, à boca miúda, que os três eram bichas enrustidas). 

  

Na atualidade, graças ao progresso da fisiologia e outras ciências, o conceito anatômico perdeu importância para o fisiológico. Hoje, o que se deseja não é a força, mas sim, a saúde. Neste estágio do desenvolvimento da humanidade a educação física visa, a par do preparo físico, também a educação no seu tríplice aspecto: físico, moral e intelectual.

 

De minha parte, eu faço o que posso e não deixo de praticar, diariamente, a minha caminhada de 10 quilômetros cravados. Faço isso porque gosto e também porque é saudável e me faz sentir bem. Aliás, como garantiam os chineses há milênios, “a saúde está nos pés”, e andar é, de verdade, um remédio milagroso. Só não cura hemorróidas, e disso sou testemunha e provo.

 


Escrito por chicoflores às 18h33
[] [envie esta mensagem] []


13/09/2009

Eu afirmo e provo: não sou decadente musical

 

Sou desses caras que se emocionam com um fundo musical de desenhos animados baseado em obras eruditas, assim como me emociono com filmes que utilizam temas de peças sinfônicas como as valsas de Strauss e de Chopin. Posso ainda me comover, dependendo da hora e do ambiente, ouvindo o Coral da IX Sinfonia de Beethoven e até chegar às lágrimas com as “Ave Maria” de Schubert, de Gounod e de Somma, se já estiver bêbado.

 

Tenho um senso musical bem sensível e, por várias vezes, já “paguei mico” por ser surpreendido chorando, em farrinhas comuns, em casa de amigos, por causa de uma simples música. Uma vez, na casa do jornalista Marcelo Martins, entrei em pranto quando, de um CD de músicas e intérpretes antigos, ouvi Elizeth Cardoso cantando o clássico da MPB no “Rancho Fundo”. Ninguém entendeu, só eu.

 

Neste exato momento, por exemplo, enquanto teclo esta crônica saboreando “beer” de minha adega, estou ouvindo Andrea Boccelli cantando “Con te partirò” e meus olhos já estão úmidos. Na seqüência, virão “Romanza”, “Vivo per lei”, “Per amore”, “Canto della terra” e “Rapsódia”. E se eu ainda não tiver terminado a crônica, mas estiver sóbrio, continuarei ouvindo: “Nel cuore lei”, “Per amore”, “Voglio restare cosi” e “Il maré calmo della Serà”.

 

Esta crônica sobre música e seus efeitos em mim foi inspirada pela conversa que tive, minutos atrás, no barzinho “Laranja Mecânica”, aqui de Jardim Camburi (Vitória ES), com Anselmo, um psicoterapeuta de Campos (RJ) que está passando férias aqui no bairro, na casa de uma irmã casada com um cara que trabalha na Vale do Rio Doce.

 

Dizia-lhe eu, lá no bar, que a vida humana seria chata sem sons e, talvez, nem se proliferasse no planeta. Cheguei ao ponto de argumentar que músicas como “As times goes by” foram responsáveis por milhões de nascimentos. E ele, sem questionar, aduziu: “A música também é mais uma das ferramentas da decadência do espírito humano. E essa decadência está se reverberando em todas as demais dimensões espirituais”.

 

Claro que concordei, pois achei a tese atraente e de ingredientes suficientes para animar a farra até o fechamento do bar. Uma tese excelente, sussurrei para meus botões, e até pensei em me preparar para tomar muitas. Primeiro porque tinha conteúdo concreto e segundo porque abria escancaradas brechas para questionamentos de cunhos esotérico e metafísico, mas como não queria ficar muito tempo no bar, eu me ative ao lado concreto.

 

Por isso apenas disse que ele estava certo e que a decadência musical, no caso brasileiro específico, era fruto de uma sacanagem da indústria fonográfica aliada à mídia – jornais, rádios e TVs -, com total apoio do stablischment. Essa curriola descobriu que lixo musical dá lucro, de um lado em dinheiro grosso com a ignorância da população e de outro em dividendos políticos com aumento da alienação do povo.

 

O Governo, por estar beneficiado, não investe em educação musical nas escolas pública e nem se interessa em criar leis obrigando as escolas particulares a ensiná-la. Portanto, os ganhos são substanciosos, pois indústria fonográfica e mídia faturam os tubos com lixo musical e o Governo ganha com a alienação, principalmente, da juventude que sequer imagina fazer música de protesto, como os jovens da época da ditadura.

 

Na verdade, eu acho que os caras que hoje fazem música são meros picaretas e não artistas, assim como os programadores da industria fonográfica e das mídia não passam de criminosos da cultura por estimularem e aceitarem as aberrações musicais. Por via de conseqüência, um grande abismo separa a música do Brasil atual da música formadora da cultura musical brasileira predominante até quatro décadas atrás, quando o mundo aplaudia nossa musicalidade inata e copiava nossas músicas.

 

Até quatro décadas atrás, a música brasileira, em todas as suas manifestações, motivava as pessoas a refletirem. Suas letras discorriam sobre a vida, o amor, o comportamento, a nação, a política e a família, sem perder o lirismo das rimas e nem a forma bem característica dos ritmos brasileiros. Hoje, a picaretagem é tão safada, tanto no nível da indústria fonográfica quanto da mídia, que ameaça nossa identidade musical. Aliás, depois de músicas como “Créo” e “Eguinha Pocotó”, não sei aonde a nação da parar.       

 

Eu, por exemplo, paro por aqui, pois consegui terminar a crônica ouvindo Andrea Boccelli, estou na terceira cerveja de minha adega e agora estou ouvindo Elis Regina cantando o “Bêbado e o equilibrista”. Em seguida, virão “Casa no Campo”, “Romaria”, “Louvação”, “O mestra sala dos mares”, “Canto de Ossanha” e “Águas de março”. Claro que já estou emocionado ao ponto das lágrimas e de porre, mas vou dormir tranquilo e, para agradar ao psicoterapeuta Anselmo, sem decadência espiritual.


Escrito por chicoflores às 21h00
[] [envie esta mensagem] []


06/09/2009

Mesmo em grego, acho que o Brasil tem jeito

 

A intelectualidade mundial já concluiu que é difícil descrever com total fidelidade e em poucas palavras a posição revolucionária da Grécia na história humana. Estou de acordo, mas vou um pouco mais adiante, acrescentando ser impossível mensurar o que os gregos antigos nos legaram em termos de civilização, cultura e educação.

 

Na verdade, se a gente parar para pensar direitinho, concluiremos que muitas das idéias que ainda se discutem em política, ciência e filosofia, por exemplo, são ecos do que já pensavam os gregos mais de 20 séculos atrás. Eles eram fenomenais e até acredito que aquela turma estava fora do seu tempo, como um fenômeno quântico bem complexo e digno de mais estudos.

 

Claro que muitas coisas acrescentamos, modificamos, demos nova forma sem mexer no conteúdo e até, em cima do que os gregos faziam antigamente, pegamos a deixa, encaixamos duas ou três palavras ou fórmulas físicas e/ou matemáticas e a reapresentamos como se fossem idéias novas. Tem até os mais sabidos que registraram patentes e viraram donos de verdades de 3 mil anos atrás.

 

Tudo bem que a evolução é assim mesmo, sempre dá mais um passo a partir de uma modificação, por mais sutil que seja. Por isso, eu sei que coisas que geraram conceito há 3 mil anos sofreram influencias e passaram por transformações até chegarem a nós, só que, mesmo assim, acho que o crédito não deve ser omitido. Se o cara que as concebeu se chamava أنطونيو ou Педро, eu acho que é o seu nome, em qualquer idioma, que tem de ser citado.

 

Foi mais ou menos isso que eu disse, instantes atrás, a Jarbinha Sonegheth, um aposentado como eu que também gosta do barzinho “Laranja Mecânica” aqui de Jardim Camburi, Vitória (ES). Tudo começou quando ele afirmou – nós dois já na terceira cerveja - que nossos políticos são como aves columbinas que se adaptam à realidade em que vivem. Segundo explicou, elas dependem da permissibilidade do ambiente e assim se proliferam.

 

Eu nada acrescentei e procurei desviar o assunto, pois sabia que Jarbas estava certo. Na verdade, eu não o podia contestar, já que no fundo compartilhava da mesma opinião. Eu sempre entendi que, enquanto o político não tiver a mesma consciência de pátria idêntica à de um militar, por exemplo, será sempre um aproveitador. Ele vai se eleger apenas para se “fazer”.

 

Eu entendo que pátria, para o político brasileiro atual, continua sendo apenas um comércio que é bom ou mau de acordo com as circunstâncias. Isso quer dizer que ele pode se dar bem quando é da situação ou ganhar menos quando é da oposição. E é essa discrepância que vem predominando no Brasil desde o período colonial, quando se instaurou a máxima “farinha pouca, meu pirão primeiro”.

 

Todos sabemos que desde o primeiro governador geral do Brasil, a partir do Século XVII, o stablishment não passou de predador. Ninguém seguia qualquer conceito filosófico e a administração pública era meramente predatória. Todo mundo queria ganhar ao máximo, sem se importar com o bem público. Portanto, não havia uma filosofia de ocupação e sequer se pensava em alguma coisa idêntica.  

 

Conceitos de pátria sequer eram ventilados. Pátria, como uma entidade espiritual ou razão de ser que dá estrutura a um país, que o define, o indivisualiza e o identifica - naquela época ninguém queria saber disso. O sentido era o da sobrevivência e de transmitir para as gerações futuras o mesmo desígnio. Assim sendo, o talento político que evoluiu daí se arraigou e se mantém inalterado.

 

Portanto, acho explicável que, passado tanto tempo, ainda não conseguimos ser totalmente éticos na política. É explicável porque o nosso DNA social mantém o mesmo registro da época da colonização, apesar das mudanças de consciência política até agora. Ética, probidade, responsabilidade social e sensibilidade ambiental já fazem parte de nosso inconsciente, mas ainda não se estratificaram em nosso subconsciente coletivo e não tomaram a forma de um imperativo.

 

Por exemplo, a nação elegeu o Partido dos Trabalhadores para governar o país, pois ele era algo novo e se identificava com os anseios mais gerais de uma nova era que ganhava espaço em nosso subconsciente coletivo. Só que, passados mais de seis anos, o PT se revelou igual às demais siglas políticas que representam as várias correntes de nossas oligarquias tradicionais. Ou seja, o PT também tinha 500 anos de interesses arraigados, mas nós não sabíamos.

 

E aí gente, imitando os velhos pensadores da Grécia antiga como Sócrates, Platão e Aristóstoles, eu só posso dizer o seguinte: “Quando a coisa não coisa a gente não aquele, faz que nem”. Em grego: “Όταν τα πράγματα δεν είναι κάτι που δεν το κάνουμε, μου αρέσε”. E vou esperar que meus bisnetos tenham um país melhor.


Escrito por chicoflores às 11h58
[] [envie esta mensagem] []


23/08/2009

Farinha pouca, meu pirão primeiro

 

Acredito que só daqui a três ou quatro gerações, a política no Brasil será integralmente caudatária da ética e da moralidade. Acho que antes é impossível, pois o germe da corrupção está bem espraiado e arraigado na psiquê social e, na maioria dos casos, sua contaminação ainda se dá de pai para filho. Posso até estar exagerando no prazo e pode ser que o senso ético se instaure antes, mas é melhor dar alguns anos de lambuja.

 

Eu me baseio na minha experiência de vida que me leva a crer que, ao longo de mais algumas décadas, o país continuará registrando escândalos políticos que durarão enquanto a consciência ética não passar a ser um atributo de berço. Até lá, a atual mentalidade de homem público predominará e a prática política brasileira conviverá com falcatruas das mais diversas variedades, abertas ou escamoteadas.

 

Eu penso assim porque sei que todas as regiões do mundo sempre foram comandadas por filosofias de vida que se transformaram em regras de condutas. Os Estados Unidos e o Canadá, por exemplo, assumiram o pragmatismo, filosofia caracterizada pela descrença no fatalismo e pela certeza de que só a ação humana, movida pela inteligência e pela energia, pode alterar os limites da condição humana. As crianças eram ensinadas a ser e respeitar os vencedores. Na Europa, predominou o praticismo baseado no pensamento influenciado por filósofos como São Tomás de Aquino e Erasmo. Por conseguinte, o europeu valoriza o bem comum e a pátria.  

 

No caso específico do Brasil, a filosofia de vida predominante desde a colonização sempre foi a de “farinha pouca, meu pirão primeiro”. E esta filosofia perdura até hoje, como uma espécie de herança maldita da qual, só com muito esforço e perseverança dos mais jovens, o país paulatinamente se livrará, terá políticos sérios e, inclusive, poderá levar Charles De Gaulle, do seu túmulo em Colombe-les-Deux-Èglises, La Lorraine, França, a dizer “até que enfim” (jusqu'à ce que finalement). Mas, como eu disse, vai demorar, pois o processo é lento.

 

O processo será lento porque ainda estamos naquela fase em que a idéia de que política e ladroagem são sinônimos permanecerá sendo senso comum. O cara continuará querendo entrar na política para se arranjar e, de posse do mandato, só pensará em fazer fortuna à custa do erário ou de negócios espúrios, pois sabe que ficará impune. Assim, ele jamais pensará na pátria ou no seu povo e, como há 500 anos, continuará sendo um mero predador da cidadania.  

 

Na verdade, há cinco séculos, o fenômeno da corrupção só tem criado bases para acomodação, através da permissividade e da tolerância no tratamento da coisa pública. Desde o tempo da colonização, a sacanagem existe, só mudando o modus operandi de acordo com a época. “Acertos”, “negociatas” e “esquemas” sempre andaram de braços dados com a política e com ela se deram bem. Na verdade, pode-se até dizer que bem poucas fortunas brasileiras foram geradas pelo trabalho.

 

Como eu só tenho 67 anos de idade não me lembro de escândalos de passados distantes, mas posso enumerar alguns mais recentes. Por exemplo, da década de 70: Caso Lutfalla; Caso Atalla; Caso Abdalla; Caso Halles; Caso BUC; Caso Eletrobrás; Caso Áurea; Caso UEB/Rio-Sul; Caso Lume; Caso Ipiranga; Caso Dow Química; Caso Nigeriano; Caso Tama; Caso Cobec; e Caso Coscafé.

 

Da década de 80, recordo-me do Caso Capemi; Caso do Grupo Delfim; Escândalo da Mandioca; Escândalo da Proconsult; Escândalo das Polonetas; Escândalo do Inamps; Caso Coroa-Brastel; Escândalo das Jóias; Caso Imbraim Abi-Ackel; e Escândalo das Pedras Preciosas. Teve mais, mas estes foram considerados os mais cabeludos. Tanto assim que, mesmo ainda sob o tacão da censura do regime militar, pelo menos a grande imprensa do Rio de Janeiro e de São Paulo, deu boa cobertura.

 

Na sécada de 90 ocorreram: o Escândalo do INSS; Escândalo do BCCI; Escândalo da Ceme; Escândalo da LBA; Esquema PC; Escândalo da Eletronorte; Escândalo do FGTS; Escândalo da Ação Social; Escândalo do BC; Escândalo da Merenda; Escândalo do Fundo de Participação; Escândalo do BB; Escândalo do DNOCS; Escândalo do Orçamento da União; Escândalo do Banco Econômico; Escândalo do Sivam; Escândalo da Pasta Rosa; Escândalo da Máfia dos Gafanhotos; Escândalo do BNDES; Escândalo da Telebrás; Caso PC Farias; Escândalo da Compra de Votos Para Emenda da Reeleição; Escândalo da Previdência; Escândalo dos Precatórios; Escândalo do Banestado; Escândalo da Encol; Escândalo da Mesbla; Escândalo do Banespa; Escândalo da Mappin; Escândalo do Dossiê Cayman; Caso Nicolau dos Santos Neto, o "Lalau"; Escândalo da Sudam; Escândalo da Sudene; Escândalo do Proer; e o Caso Marka/FonteCindam

 

Viramos o milênio, mas a ética não conseguiu preponderar e, assim, registramos o Caso Luís Estevão; Caso Toquinho do PT; Caso Celso Daniel; Caso Lunus (ou Caso Roseana Sarney); Caso José Eduardo Dutra; Escândalo do Propinoduto; Escândalo do Valerioduto; Escândalo dos Vampiros; Caso Maurício Marinho; Escândalo do IRB; Escândalo do Mensalão; Escândalo da Secom; Escândalo do Brasil Telecom; Escândalo dos Dólares na Cueca; Escândalo do Banco Santos; Escândalo do Grupo Opportunity (ou Caso Daniel Dantas); Escândalo dos Empréstimos para aposentados; Caso do caseiro Francenildo Santos Costa); Escândalo das Ambulâncias; Caso Renan Calheiros; Escândalo dos cartões corporativos; Esquema de desvio de verbas no BNDES; e Escândalo dos atos secretos.

 

Portanto, o escândalo dos atos secretos do Senado envolvendo a velha raposa José Sarney nada mais é do que uma simples dose purgatória das que o Brasil ainda terá que tomar até purgar seu último corrupto e se tornar um país ético. Ainda vamos conviver com as sacanagens da sucessão, que não serão poucas, mas vamos avançar. Creio que nem minha neta e nem os filhos dela saberão o que é um país ético, mas os filhos dos filhos dela começarão a conceber o que é um país antiético.

 

E é tendo esta certeza e concebendo que o futuro está a favor do Brasil, e não dos canalhas, que eu vou tomar mais uma, apesar do adiantado das horas.


Escrito por chicoflores às 12h39
[] [envie esta mensagem] []


01/08/2009

Em defesa da cerveja luto contra o aquecimento global

 

Não sou totalmente engajado, a ponto de participar de qualquer ato público, passeata e/ou pichação de muro madrugada a dentro, mas dou a maior força e torço para que a defesa do planeta contra o aquecimento global não seja esmorecida e tenha pleno êxito. Não é que eu seja um acomodado, desses que deixam a luta para os outros, sabendo que do sucesso dela também se beneficiará. Não e não.

 

O que acontece é que já estou velho para sair às ruas, fico rouco só de pensar que terei de fazer discursos e a idade não me permite mais apanhar sereno, já que corro risco de me gripar. Portanto, não estou em condições de radicalizar, não sou mais xiita e minha época de quebrar o pau já passou, mas isso não quer dizer que esteja sendo omisso, muito pelo contrário.

 

Não sou um alienado e sei que o aquecimento global cobrará um preço alto à humanidade, já que ninguém se livrará das conseqüências da catástrofe planetária. No momento mesmo, alguns efeitos do desastre já podem ser especulados, como, por exemplo, o aumento vertiginoso no preço da cerveja, não só no barzinho Laranja Mecânica aqui de Jardim Camburi (Vitória-ES), mas em nível mundial. E essa ameaça me preocupa e me deixa revoltado.    

 

O preço da cerveja aumentará porque a mudança climática prejudicará a produção de cevada, ingrediente essencial dessa bebida, segundo um estudo de um cientista da Nova Zelândia, Jim Salinger, que é especialista ambiental do Instituto de Água e Pesquisa Meteorológica Neozelandês. Segundo Jim, o aquecimento global destruirá grande parte dos cultivos do cereal na Oceania.

 

As áreas secas da Austrália e Nova Zelândia receberão cada vez menos precipitação, levando à redução da área plantada de cevada. Por causa disso haverá uma redução drástica da produção de cerveja, nos próximos anos. “Nesse caso, os bares terão de deixar de servir cerveja ou ela será muito mais cara”, explicou Jim que, assim como eu e pelos mesmos motivos, também está bastante preocupado.

 

Portanto, como disse no início da crônica, dou a maior forço e torço para que a luta em defesa do planeta comece a dar sinais de vitória desde já, antes que Fabrício e Daniela, donos do Laranja Mecânica, comecem a fazer mudanças na tabela de preços da cerveja, já por conta do alerta do cientista neozelandês.


Escrito por chicoflores às 19h26
[] [envie esta mensagem] []


30/07/2009

Estou mais íntimo de Ninkasi, a Deusa da Cerveja

 

Claro que nem sempre as coisas funcionam como a gente quer. Às vezes dão certo e às vezes não, mas isso não quer dizer que devamos desistir. Aliás, o termo “desistir” jamais deve constar do vocabulário de um cara “vencedor”. O vencedor é aquele que nasceu para ser o melhor e dar certo em todos os sentidos e, já na infância, consegue se sobressair e ocupar espaços.

 

Na verdade, a pessoa que nasceu para vencer dá logo sinais de ser vitoriosa nas primeiras manifestações de vida, ainda bebê, não importa o berço de nascimento - se rico ou pobre. Nada a detém e ela prossegue num tipo de busca que só ela, mesmo ainda na tenra infância, entende e sabe o porquê. Esse tipo de pessoa nasceu buscadora.

 

A pessoa buscadora é aquela que não respeita obstáculos e os enfrenta como se eles fossem simples pedras no caminho. E é assim que estou enfrentando a busca pela descoberta da letra e música do Hino à Ninkasi, a Deusa da Cerveja venerada pelos sumérios há quase 3 mil anos a.C. Usei todos os recursos que a internet me dá e já consegui, pelo menos, a letra do hino, mas falta a música.

 

Portanto, a minha busca ainda não terminou. É que eu a iniciei por fontes científicas, como sites arqueológicos, e sequer pensei que fontes alternativas, como sites de beberrões como eu, seriam eficazes. Aí está e letra que eu consegui graças ao “blog Confrariadabirita” (http://www.confrariadabirita.com.br). Agora sairei em busca da música, nem que seja de um simples fragmento de partitura.

 

“Hino em louvor à Ninkasi

 

Nascida da água corrente (…)

Delicadamente cuidada por Ninhursag

Nascida da água corrente (…)

Delicadamente cuidada por Ninhursag

 

Tendo fundado sua cidade pelo lago sagrado,

Ela rematou-a com grandes muralhas por você,

Ninkasi, fundando sua cidade pelo lago sagrado,

Ela rematou-a com grandes muralhas por você.

 

Seu pai é Enki, Senhor Nidimmud,

Sua mãe é Ninti, a rainha do lago sagrado,

Ninkasi, seu pai é Enki, Senhor Nidimmud,

Sua mãe é Ninti, a rainha do lago sagrado.

 

Você é a única que maneja a massa,

com uma grande pá,

Misturando em uma cova o bappir com ervas aromáticas doces,

Ninkasi, você é a única que maneja

a massa com uma grande pá,

Misturando em uma cova o bappir com tâmaras ou mel.

 

Você é a única que assa o bappir

no grande forno,

Coloca em ordem as pilhas de sementes descascadas,

Ninkasi, Você é a única que assa

o bappir no grande forno,

Coloca em ordem as pilhas de sementes descascadas,

 

Você é a única que rega o malte

jogado pelo chão,

Os cães fidalgos mantém distância, até mesmo os soberanos,

Ninkasi, você é a única que rega o malte

jogado pelo chão,

Os cães fidalgos mantém distância, até mesmo os soberanos.

 

Você é a única que embebe o malte em um cântaro

As ondas surgem, as ondas caem.

Ninkasi, você é a única que embebe

o malte em um cântaro

As ondas surgem, as ondas caem.

 

Você é a única que estica a pasta

assada em largas esteiras de palha,

A frialdade dominou.

Ninkasi, Você é a única que estica

a pasta assada em largas esteiras de palha,

A frialdade dominou.

 

Você é a única que segura com ambas as mãos

o magnífico e doce sumo,

Fermentando-o com mel e vinho

(Você, o doce sumo para o eleito)

Ninkasi, (…)

(Você, o doce sumo para o eleito).

 

O barril filtrador, que faz

um som agradável,

Você ocupa apropriadamente o topo

de um grande barril coletor.

Ninkasi, o barril filtrador,

que faz um som agradável,

Você ocupa apropriadamente o topo

de um grande barril coletor.

 

Quando você despeja a cerveja filtrada

do barril coletor,

é como os barulhos dos cursos

do Tigris e do Euphrates.

Ninkasi, você é a única que despeja

a cerveja filtrada do barril coletor,

é como os barulhos dos cursos

do Tigris e do Euphrates.”


Escrito por chicoflores às 11h28
[] [envie esta mensagem] []


27/07/2009

Ainda farei "happy hour" em louvor a Ninkasi

 

Não sei a letra e nem conheço a música e é por isso que não canto, como adoraria fazer, o hino a Ninkasi, a Deusa da Cerveja venerada pelos antigos sumérios há quase 3 mil anos a.C. Já fiz o possível para saber, pelos menos, os primeiros acordes, mas não consegui, apesar de procurar com avidez e ansiedade em dezenas de sites arqueológicos, sem sucesso.

 

Em todos eles só encontrei, até agora, referências comprovando a existência dessa sublimada deidade, mas só isso. Sobre o hino, nada de concreto, sequer uma simples nota musical ou um verso fragmentado. Nem mesmo evidências de um refrão do tipo “tchan, tchan, tchan” da Quinta Sinfonia de Bethoven consegui obter.  

 

Até agora, só sei que arqueologia chegou à conclusão de que Ninkasi era a dona da festa nas rodadas de cerveja dos sumérios, a partir da descoberta de escritos em acádico, que era a língua deles, em placas de barro. Inclusive, acharam até uma inscrição do que seria um cardápio, que relacionava uma espécie de lingüiça de carne de camelo como um tira-gosto de primeira linha. Até agora só isso.

 

Portanto, continuo a busca, pois para mim é importante conhecer o Hino a Ninkasi, no mínimo fragmentos dele, já que será melhor cantá-lo nos barzinhos que freqüento do que ficar ouvindo e/ou solfejando músicas que sequer eu gosto. Quero poder cantar como um velho beberrão sumério, daqueles que sabiam que a cerveja era também mais um néctar dos deuses, pois ele era íntimo deles, segundo a Bíblia.

 

Por isso não desisto de minha busca, até porque, como velho jornalista aposentado graças a Deus, tenho todo o tempo do mundo para continuar minha pesquisa sobre a Deusa Ninkasi, sem me preocupar com qualquer outra tarefa. Aliás, por falar nisso, há cinco anos, depois de minha aposentadoria, sequer me preocupo com “que horas são agora?”.

 

Assim sendo, como um bom beberrão de cerveja que sou e seguindo a tradição dos meus antepassados suméricos de 3 mil anos antes de Cristo, posso garantir que, um dia, ainda vou entrar no barzinho Laranja Mecânica, aqui de Jardim Camburi (Vitória-ES), e pedir a primeira cerveja entoando o hino à minha Deusa. Quem sabe se, até lá, não farei isso na própria língua acádica?  

 


Escrito por chicoflores às 23h18
[] [envie esta mensagem] []


20/07/2009

Todos têm seu herói, o meu é Ramsés III

 

Dos meus ídolos históricos tenho mais admiração pelo faraó Ramsés III, que governou o Egito entre 1184 a 1153 a.C. E pelo que sei dele, depois de ler “n” textos baseados em suposições arqueológicas, ele foi um caro muito legal, tanto assim que, apesar de não ficar muito tempo no poder, deixou importantes legados para a humanidade.

 

Acredito até, pelo que li sobre ele, que Ramsés III, mesmo sendo o todo poderoso da época, um cara que mandava a desmandava e sequer tinha câmara de deputados, senado federal, ministério público ou jornalistas para lhe encherem o saco, jamais foi além de suas atribuições de governante. Era uma pessoa sensata e governava seu povo com a sensibilidade de um estadista compenetrado.

 

Claro que havia guerras, um povo conquistava o outro e as matanças eram consideradas normais pelo exército vencedor. O domínio do vencedor era total e ninguém apelava para o Conselho de Segurança da ONU, que ainda não existia. Era uma dureza viver naqueles tempos, mas Ramsés III contornou tudo isso apenas criando a primeira fábrica de cerveja do Egito.

 

Quando ele deixava Tebas, capital do Egito, com seu exército para conquistar outros povos, por exemplo, mandava na frente milhares de ânforas cheias até à boca de cerveja de sua própria cervejaria. E, quando ele chegava ao local, sempre depois das 18 horas, já encontrava todo mundo bêbado, felizes da vida e prontos para uma farra, e tudo acabava em confraternização com discursos e até casamentos entre as partes.   

 

Foi ele também que, por decreto, exigiu que, a partir das 18 horas, em todo Egito, o povo ficaria desobrigado de pensar em coisa séria, até mesmo em construir pirâmides. Não foi à toa que Ramsés III passou para a História com o “faraó cervejeiro”, título que ele recebeu solenemente num ato público, nas escadarias em frente à sede do governo, já que não havia parlamento no seu tempo.

 

Inclusive, teve uma vez que um ganancioso dono de taberna, das várias que existiam em Tebas, e que importava a cerveja fabricada pelos sumérios, resolveu subir o preço da ânfora, que passou de o equivalente hoje a R$ 2 para R$ 3,50, como aconteceu há quatros meses aqui em Jardim Camburi (Vitória-ES). Lá, o protesto foi geral e o clamor das ruas chegou aos ouvidos do faraó. Aqui, ficou por isso mesmo.

 

Ramsés III não contou com nada e nem esperou que o mercado se acomodasse através da concorrência. Quando ele soube do abuso, chamou o seu sumo sacerdote e, na frente dele, assinou um decreto escrito em papiro doando ao Templo de Amon 466.308 ânforas, ou aproximadamente um milhão de litros de cerveja provenientes de suas cervejeiras, para serem distribuídas de graça ao seu povo.

 

O tal dono da taberna não agüentou a pressão e até faliu, e Ramsés III teve um novo pique de popularidade que a arqueologia não registrou porque não havia, naquela época, nenhum instituto de pesquisas e sequer a CNI, que já contava com algumas iniciativas manufatureiras sem noção do que era opinião pública, ainda não havia sido criada.

 

É por isso que Ramsés III, para mim, é meu herói histórico. Poderia ter sido Alexandre III da Macedônia (em grego Αλέξανδρος ΙΙΙ της Μακεδονίας Αλέξανδρος), 356 a.C., que foi o mais célebre conquistador do mundo antigo. Ou Gengis Khan, (em mongol Чингис Хаан) 1162-1227, que foi o conquistador e imperador mongol que fez nascer a China que hoje conhecemos.

 

Tudo bem; para mim esses caras foram legais, fizeram e aconteceram, conquistaram povos e nações e mudaram a geopolítica planetária. O que era um país passou a ser outro e povos antes diferentes se interligaram e viraram uma só nação. Só que, eles não foram sensíveis e humanamente corretos como Ramsés III que, além de fazer tudo que eles fizeram, também criou os até hoje insubstituíveis estímulos da nossa happy hour.


Escrito por chicoflores às 00h09
[] [envie esta mensagem] []


09/07/2009

Perdi os dentes, mas não perdi o apetite

 

Claro que a célebre frase “a juventude é uma coisa maravilhosa; que pena desperdiçá-la em jovens” não é de minha autoria, assim como não fiz nada para torná-la conhecida, famosa e aplaudida pela nata da intelectualidade idosa do mundo inteiro. Igualmente nada fiz que pudesse dar-lhe a dimensão de uma máxima filosófica irretorquível.

 

O que me coube fazer estou fazendo agora, com atraso secular, ao torná-la tema desta crônica desinteressada e destituída de valor literário intrínseco. Faço apenas aquilo que qualquer um faria se, numa tarde de domingo chuvoso e chato como a de hoje, faltando mais de uma hora para assinar presença no bar “Laranja Mecânica”, se lembrasse que já tem 67 anos de idade.

 

Como disse, a frase não é minha, mas, sim, do escritor e dramaturgo irlandês George Bernard Shaw, que a deve tê-la pronunciado naquele primeiro momento em que todo homem se dá conta de que ficou velho. Não sei se a inesperada constatação da velhice o aborreceu e levou-o a estigmatizá-la, ou se ele disse “youth is a wonderful thing. What a shame to waste it young” levado apenas pelo saudosismo.

 

De qualquer maneira, não estou de acordo com a frase do George. Digo isso com toda sinceridade e até vou mais adiante, acrescentando que não gostaria de, num passe de mágica, voltar a ser jovem, o que para mim seria um desastre. Digo desastre porque, logo de cara, perderia a minha deliciosa condição de aposentado.

 

Voltando a ser jovem, eu teria de voltar a trabalhar e estaria condenado a reviver todo aquele período de vida que eu já coloquei nos escaninhos da História. De maneira nenhuma eu toparia uma empreitada dessas. Sou velho, mas não sou maluco! E até afirmo com toda convicção: nem mesmo quando já estiver senil pensarei numa asneira desse quilate.    

 

Eu adoro a minha velhice e faço dela a minha maior inspiração de vida. Não quero nem saber se apareceu ou não mais alguma ruga e que, a cada dia, estarei ficando mais velho. Às favas com tudo isso! Preocupo-me apenas em nunca mais cair na tentação de aceitar qualquer convite para retornar à ativa. E peço sempre a Deus que me livre desse tipo de cálice.

 

Estou muito bem na condição de lobo velho que perdeu os dentes, mas não perdeu o apetite. E por falar em apetite, daqui a pouco vou provar os bolinhos de queijo que o barzinho Laranja Mecânica introduziu no seu cardápio de tira-gosto. Garanto que vou gostar e até trazer para casa uma porção para o meu breakfast de amanhã.


Escrito por chicoflores às 11h32
[] [envie esta mensagem] []


02/07/2009

Nunca fui e jamais irei além dos 5%

 

“Só sei que nada sei” talvez seja a mais famosa sentença da História da Filosofia e acredito até que seja a mais lembrada. Eu mesmo me recordei dela em várias ocasiões, principalmente naquelas em que, de verdade, não tinha resposta para alguma inusitada indagação, tanto em termos pragmáticos quanto em teoria.

 

Quem já não teve oportunidade de ouvi-la uma ou mais vezes e quantos não se lembraram dela, ao concluir que ainda têm bastante coisa para aprender? E é nessas ocasiões que se chega à conclusão de que mais inteligente é fechar a boca e seguir à risca o ensinamento do filósofo Plotino: “o silêncio surge como um calar essencial”.

 

A sentença “só sei que nada sei” é originalmente atribuída a Sócrates, o filósofo clássico grego que sempre a usava, quando, de saco cheio, ouvia alguma pergunta idiota. Nessas ocasiões ele levantava a voz, colocava o dedo na cara do interlocutor e vociferava, em grego que era sua língua: “Ξέρω μόνο ότι τίποτα δεν γνωρίζει”.

 

Gosto de citar Sócrates porque ele foi um filósofo completo, a ponto de, inclusive, valorizar o desvalorizado. Conhecia todas as minudências da existência lógica e ilógica e, ainda, de lambuja, explicava com detalhes as contradições entre vida e viver. No seu entendimento, o substantivo e o verbo muitas vezes não se relacionavam.

 

Sócrates ensinava que o valor intrínseco do ser humano deve ser medido pela sua capacidade de minimizar o impossível. Ou seja: jamais exacerbar o que quer que fosse, nem mesmo as tarefas práticas da subsistência, e levar a vida sempre na flauta. Por isso ele dava importância à preguiça e até dizia que somos todos de índole preguiçosa.  

 

E o que filósofo ateniense dizia 400 anos antes de Cristo hoje tem o apoio integral da ciência, que comprovou a veracidade da suas teses depois de descobrir que só usamos 5% da capacidade de nosso cérebro. Nós temos 10 bilhões de neurônios, 100 trilhões de conexões nervosas e mesmo assim, não estamos nem aí. Em nada vamos além dos 5%, a não ser, às vezes, na gorjeta, dependendo do garçom, claro.

 

Eu mesmo já gastei meus 5% ao escrever esta crônica, por isso paro por aqui.


Escrito por chicoflores às 16h24
[] [envie esta mensagem] []



O barzinho Laranja Mecânica agora tem seu blog

 

Achei excelente a iniciativa de Fabrício e Daniela de ampliar a comunicação de seu recém inaugurado bar “Laranja Mecânica” através da internet. Foi uma idéia das mais plausíveis, inclusive, pelo ineditismo, já que nenhum bar aqui do bairro Jardim Camburi (Vitória-ES) pensou nisso antes.

 

O endereço é www.laranja.mecânica.zip.net e abaixo transcrevo o texto de apresentação:

 

“Quem somos

 

Com uma decoração inspirada no filme "Laranja Mecânica", um clássico de Stanley Kubrick rodado em 1971, o nosso bar Laranja Mecânica é a mais nova opção de happy hour para quem gosta de um ambiente saudável e de qualidade no atendimento. Localizado em Jardim Camburi, à rua Milton Ramalho Simões, 130, nosso estabelecimento está respaldado numa cozinha de petiscos leves e numa adega variada que vai da cerveja sempre gelada, sucos e aqueles coquetéis que marcaram os inesquecíveis "Anos Dourados".

 

Nossos petiscos são de receitas exclusivas e diferenciadas e têm como ponto forte uma variedade de sanduiches, pratos ligeiros e carnes de frango e bovina em forma de churrasquinho ou direto no prato. Nossa oferta de bebida inclui ainda o Cuba Libre, com rum Montilla, Coca-Cola, limão e gelo; o Hi-Fi, com vodka, Fanta Laranja, laranja e gelo; e o Club Soda, com gim, Soda Limonada, limão e gelo. Oferecemos ainda sucos com combinações especiais de abacaxi, morango, laranja e outras frutas tipicamente capixabas, todos de receitas também exclusivas.

 

Aberto de terça-feira a domingo, das 18h30 à uma da manhã, o Laranja Mecânica também oferece à sua clientela, além de um ambiente agradável e espaçoso, em local privilegiado de Jardim Camburi, a possibilidade de rever shows de seus artistas preferidos através de um telão e de mostrar seu talento tocando nossa guitarra que está sempre à disposição do interessado.”


Escrito por chicoflores às 16h09
[] [envie esta mensagem] []



[ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]
 
 
 
       
   



BRASIL, Sudeste, VITORIA, JARDIM CAMBURI, Homem, Portuguese, Portuguese, Bebidas e vinhos, Música
Outro -


Histórico

OUTROS SITES
    UOL - O melhor conteúdo
  BOL - E-mail grátis
  Dino Gracio
  Somos todos um
  O Seletor
  Perolas Políticas
  Don Oleari


VOTAÇÃO
    Dê uma nota para meu blog