Blog de chico.flores



BRASIL, Sudeste, VITORIA, JARDIM CAMBURI, Homem, Portuguese, Portuguese, Bebidas e vinhos, Música
Outro -
border=0
 
   Arquivos

 
border=0
Outros sites

 UOL - O melhor conteúdo
 BOL - E-mail grátis
 Dino Gracio
 Somos todos um
 O Seletor
 Perolas Políticas
 Don Oleari
 Luiz Aparecido


Votação
Dê uma nota para meu blog



border=0
 


O pior de tudo é, depois da farra, voltar prá casa

Eu não gosto de bebericar em casa e prefiro tomar as minhas cervejas no bar. Não sei explicar esse tipo de preferência e, nem tampouco, me importo com ela, que pode ser chamada de idiossincrasia de beberrão, ou outra coisa. Mas, sendo o que for e tendo a classificação morfossintática que melhor aprouver ao interessado, para mim, beber em casa é o mesmo que assistir às óperas “Turandot”, de Puccini, ou “Rigoleto”, de Verdi, pela televisão. Não há encanto, não há magia...

Claro que a casa da gente é um abrigo, aliás, o único abrigo que, apesar de vulnerável na atualidade, nos mantém, razoavelmente, afastados dos dissabores do mundo. Na verdade, é nela que nos refugiamos, quando o lado de fora se torna hostil e nos faz sentir pequenos. Já dentro dela, por mais modesta que possa ser, própria ou alugada, nos sentimos grandes como um monarca poderoso, mais poderoso até que qualquer dos césares romanos, sem contar com o Alexandre, o “Grande”, ou o Gengis Khan.  

Todavia, apesar de ser um refúgio seguro e onde somos a lei (até o establishment dizer o contrário), a casa da gente sedimenta-se em sólidos pilares de pragmatismo. Tudo nela é racional, objetivo e concreto, que vai do verbal, no relacionamento, às mais simples manifestações e necessidades do corpo humano. Só que, dentro dela, somos meros coadjuvantes do milenar drama épico da humanidade e continuamos a fazer a nossa parte, talvez, seguindo scripts adredemente preparados.  

Já o bar sedimenta-se em pilares subjetivos que se sustentam em um tipo de alma. Mas, não é aquela alma independente da matéria e que sobrevive à morte do corpo, como aprendemos nas aulas de catecismo. Não, não é isso e não tem nada a ver com concepções religiosas. É um tipo de alma sem registro em compêndios espiritualistas e que sequer é reconhecida por qualquer insigne mestre do esoterismo ou da metafísica.

Acho que é uma alma que só nós, os freqüentadores de bar, sabemos distinguir, pois ela é fruto de um contexto que vai muito além da dicotomia tradicional entre corpo e alma. A alma do bar é integral, não exclui nada, unifica todo o ambiente, estimula todos os sentimentos amorosos e estimula todas as carícias. Ela é uma alma versátil e com o poder de um mágico capaz de transformar um botequim “bunda de fora” num suntuoso bar de navio transatlântico de primeira linha.

Eu mesmo sinto a alma do bar se manifestando em todos os detalhes. Ela está em cada nova cerveja que eu peço ao garçom e nos copos e nos goles ingeridos; e também está em cada gesto de acender o cigarro e na forma oblíqua e dissimulada de como eu estou sendo olhado por aquela “coroa” saudosista e solitária sentada um pouco mais adiante. Eu ainda noto a participação da alma do bar no entusiasmado agradecimento do cantor de seresta, como se, de verdade, a platéia estivesse com a atenção concentrada nele.    

Eu também vejo a alma do bar na ternura do olhar que aquela exuberante mulher sentada ao lado do marido, ou sei lá o quê, dirige ao jovem garçom de longos cabelos louros, que eu pensava ser viado, mas que retribui de soslaio, como se já se conhecessem há muito tempo. Sinto, ainda, a mesma alma presente na repentina e furiosa despedida daquele “setentão” que se levantou da mesa e, de dedo em riste, vociferou para a jovem morena sorridente: “Não me procure mais. Não sou palhaço”.  

Claro que a casa da gente merece ser chamada de “recesso sacrossanto”, mas, no entanto, não tem a magia que o bar tem. A casa nos faz sentir protegidos, já o bar nos deixa livres para sonhar e rompe todas as amarras de nossas fantasias. No bar, tudo é encanto emoldurado por uma ambiência de luzes e tipos de som que nenhum grande maestro conseguiria compilar e nenhuma grande orquestra conseguiria tocar. E isso sem contar com a esfuziante, justificada e necessária participação dos bêbados contumazes.

É por isso que eu fico puto da vida, na hora de pagar a conta e voltar prá casa.



Escrito por chicoflores às 02h02
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]






[ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]
border=0