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Do que está registrado no DNA ninguém se livra

Como eu não sou submisso a qualquer tipo de opinião, posso rejeitá-la ou não, e não estarei fazendo favor algum, caso concorde com ela. Acho até que o ideal seria que cada ser humano discordasse do que lhe fosse dito de imediato e se mantivesse neutro em relação às formas de pensar de outra pessoa. Dessa maneira, acredito, usufruiríamos melhor da nossa condição pedante de "animais inteligentes" que adotamos, como se o resto da fauna não existisse.

Hoje eu sei que, no caso dos humanos, todo mundo já nasce com uma diretriz própria, que está registrada no DNA individual, e que norteará a vida. Nesse registro sempre fica estampado o que cada um será: se vai ser membro da massa ignara, será apenas massa de manobra; se vai integrar a elite que dependerá da massa de manobra para existir, será líder e não adianta apelar. Não é, portanto, o que erroneamente se convencionou chamar de destino e, nem tampouco, imposição divina. Na verdade, cada um nasce já prontinho para ser o que será e não há apelação.

Eu nem mesmo acredito mais em influência de berço, já que, por mais pobre ou rico que for o ambiente de nascença, este não será o elemento predominante da vida a ser seguida. O cara tanto pode ter nascido na riqueza e acabar sendo um mero membro da massa de manobra, como nascer na pobreza e acabar sendo um líder integrante da elite e viver a custas da massa de manobra que, diga-se de passagem, tem que ser a maioria da população. E não importa o nível intelectual, pois o cara estará sempre subordinado ao registro do seu DNA.

Isso não quer dizer, no entanto, que aquele que nasce para ser massa de manobra é um ser de segunda classe. Ao contrário, ele tem uma missão muito importante e até, pode-se dizer, que é fundamental para a existência da humanidade, pois cabe a ele manter a integridade da organização dos humanos. Sem os massa de manobra, por exemplo, a vivência humana seria caótica, não haveria hierarquia e nem regras de comportamento.  Eu até acho que sequer teríamos sobrevivido como espécie e já estaríamos extintos, mesmo antes de um segundo meteorito, depois daquele que matou os dinossauros, atingir a terra.

E foi esse argumento que eu usei, sem muita ênfase, agora há pouco, no bar do Gaúcho, quando Mário Villaverde, um imigrante espanhol que aqui chegou, há 35 anos, na época da implantação das primeiras usinas de pelotização da Vale do Rio Doce, me disse que gostaria de ter o dia com mais de 24 horas. “Pacho (eu odeio quando ele me chama de Pacho e não de Chico), agora como aposentado, preciso de mais horas para “vivir” plenamente”.

Mário foi um dos primeiros técnicos em lingotamento que Brasil conheceu e, durante sua vida profissional entre nós, transmitiu experiências e formou muitos outros que se multiplicaram e permitiram ao país deixar de importar mão de obra especializada nessa área. Mas, ele nem gosta de se lembrar de quando aqui chegou, pois “eu demorei muito para deixar de pensar como espanhol e passa a pensar como um brasileiro de verdade”. Hoje, ele até bate no peito ao dizer que “sou um cidadão brasileiro e pai de quatro brasileiros, dois médicos e dois engenheiros”, apesar de manter o sotaque da terra de Cervantes.

Fui eu que lembrei a Mário, no bar do Gaucho, que um escritor conterrâneo seu, de nome Ramón Gómez de la Serna, já havia chegado a defender, com ênfase, a instituição da vigésima-quinta hora do dia: “¡Oh, si hubiera una hora más, hora y momento excepcional de repuesto veinticinco!'', exclamava com emoção. E também disse a Mário que, com o dia tendo somente 24 horas, nós, aposentados, já somos uma espécie de querubins, com mais horas seríamos anjos de primeira hierarquia com total liberdade para usar nossos poderes divinos.

Mas, voltando ao Ramon Gomes, ele achava que o aumento do dia lhe favoreceria a criatividade, porém, como ninguém lhe dava ouvidos, deixou Madri e foi morar em Buenos Aires, onde, também, não encontrou ambiente para continuar pensando em tal besteira. Claro que ele tentou, ainda por algumas vezes, disseminar sua idéia do aumento das horas do dia, mas, como na época, os argentinos estavam mais interessados em tirar da cabeça dos militares a idéia de que eles não eram políticos, o velho escritor resolveu ficar na dele.

Hoje eu sei, por experiência própria que, de vez em quando, aparecem esses tipos de caras que exacerbam o seu direito de opinião, só que, por sorte da humanidade, a maioria não tem força para levar adiante suas idéias e cai no ridículo. Contudo, o mundo continua cheio desses caras que sempre encontram uma oportunidade para alardear alguma bizarria embutida em conceito, tese, ideologia ou seita que podem até obter ressonância momentânea, porém, na maioria dos casos, o tempo se incumbe de desacreditá-la.

A História registra esses casos desde quando os sumérios desenvolveram a escrita cuneiforme, por volta de 4000 a.C.. Já naquela época, teve um sabido que resolveu escrever a história de seu povo e, em um relato prenhe de sensacionalismo, disse que eles haviam sido criados e civilizados pelo deus anfíbio Oannes. Ele virou best sellers, ficou na lista dos mais lidos durante milênios e, até hoje, quando a arqueologia fala sobre aquele povo longínquo no tempo, nunca deixa de citar a sua obra. O nome dele ninguém conhece, pois ele não assinava o que escrevia.

De lá prá cá, sabe-se que muito maluco tentou enfiar o bedelho onde não era chamado e nem tinha competência para fazê-lo. No século passado, por exemplo, quiseram até nos impor exotismos como o fascismo, nazismo e integralismo, mas sem sucesso.  E as bizarrias continuam a proliferar, na mesma proporção do aumento e intensidade da sagacidade humana. Só que no caso do aumento do dia terrestre para 25 horas, como defendia o escritor espanhol, eu não tenho nada a opor, ao contrário, para mim tanto faz aumentar quanto diminuir o número de horas.

Assim como não sou obrigado a fazer mais nada em 24 horas, igualmente ficarei livre de qualquer imposição com o acréscimo, ou redução, de outros 60 minutos. Claro que estou falando de mim, pois não tenho procuração dos que continuam pensando no tempo como algo apenas para o trabalho, para “ganhar a vida”. Eu já cheguei ao estágio de não precisar adotar a fórmula “tempo é dinheiro” como imperativo de sobrevivência e não confundo mais tempo, trabalho e dinheiro como três aspectos de uma mesma realidade.

Sou um jornalista aposentado e, agora, só me submeto a uma obrigação: de vez em quando (repito, só de vez em quando), sempre à tardinha, escrever uma crônica despretensiosa aqui no blog, enquanto espero a hora de ir ao bar tomar minhas cervejinhas do dia. E não faço nada mais, nada menos, do que seguir à risca o que está registrado no meu DNA.

  [ 2 comentários aprovados]



Escrito por chicoflores às 14h54
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