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A conclusão é que não sei nada de nadica

Até por ignorância, mesmo, a gente nunca abre mão da opinião emitida, principalmente quando ela passa a ser contestada com veemência. Em casos como este, a primeira sensação que se tem é a de que o estão humilhando e que a vergonha irremediável será seu pouso certo. Assim, a primeira contestação será a de que não haverá outra opção a não ser dobrar-se diante da comprovação de uma sandice incontestável; ou não aceitar, em hipótese alguma, o contraditório e continuar batendo na mesma tecla.

É claro que tudo vai depender, também, do ambiente e das pessoas que estão à sua volta. Se houver mulheres em maior número e o opositor for homem, a gente chega às raias da impertinência para manter a opinião. Pode-se até ser ferino e mandar as suscetibilidades às favas, a ponto de transformar uma simples discussão num temporal de vitupérios capaz de azedar qualquer ambiente, terminando uma boa farra e comprometendo amizades. O pior de tudo é que, passado o frenesi, a gente se arrepende a conclui que fez uma burrada.  Comigo aconteceu muitas vezes e vai longe o tempo em que tudo começou.

Quando cursava as primeiras séries do primeiro grau, por exemplo, aprendi que a terra era redonda, porém achatada nos pólos. A minha professora na época era dona Ilma, de idade indefinida, rosto rosado e semblante alegre e agradável que me lembrava uma freira, e que usava uma laranja para nos explicar que nosso planeta era achatado nos pólos.

- Fessora, não seria melhor se fosse uma goiaba?

- Por que, uma goiaba, menino?

- Porque se for achatada em cima e em baixo é porque não tem bicho. Goiaba muito redonda tem bicho à beça.

Claro que de lá para cá evoluímos e o tal achatamento passou a caracterizar apenas cabeça de cearenses como a de Zeca Fagundes, um migrante de Fortaleza e parceiro de cerveja. Conheci Zeca logo assim que passei a morar em Jardim Camburi, Vitória (ES), e entrei pela primeira vez no Bar do Gaúcho, que já era seu ponto de longa data. Mas, não foi a semelhança de gosto pela cerveja que me aproximou dele, mas sua desenvoltura na abordagem de um tema que ele, pelo menos, à primeira vista, pareceu-me dominar.

- Chico, não sou religioso, ou seja, superticioso. Sou um hermetista.

De imediato, pude notar que Zeca era um ledor contumaz de publicações sobre o tema e que o grau de conhecimento dele era muito maior que o meu, que se baseava, somente, em umas poucas monografias superficiais lidas por imposições profissionais. Zeca já tinha lido até as traduções para o português de obras como o “Corpus Hermeticum” e a “Tábua de Esmeralda”, atribuídas a Hermes Trismegistus, um mestre do antigo Egito a.C, muito respeitado pelos esotéricos e metafísicos da atualidade.

Claro que sei que esses escritos bem antigos contêm os aspectos teóricos, filosóficos e teosóficos sobre a verdade do universo e da vida biológica, coisas negadas com truculência pelas religiões cristãs. Inclusive, milhares morreram nas fogueiras da Inquisição, na Idade Média, apenas por confessarem ou ter ouvido falar disso. E por isso, nunca interrompia Zeca quando ele, com uma argumentação caudalosa e cheia de citações de autores famosos garantia que “tudo é mental e o que chamamos de Deus é uma mente vivente infinita e universal”. O próprio universo, dizia meu parceiro de bar, “é simplesmente uma criação mental e tem sua existência na mente do que chamamos de Deus, onde vivemos, nos movemos e temos nossa existência.”

- Chico, se a gente pudesse se distanciar o suficiente para ver o universo apenas do tamanho de uma bola de futebol, o veríamos como um cérebro, que é a sua verdadeira forma e o que, na verdade, ele é.

Claro que eu quis contestá-lo, respaldando-me na precariedade do que eu sabia de física, química e matemática, mas como Zeca me olhava sorrindo um sorriso leve e cativante, daqueles sorrisos que só os humildes sábios têm, apenas o olhei e me calei, deixando-o falar.

- Chico, somos somente mente e tudo o que conhecemos só existe nela, inclusive o ambiente em que vivemos e a vida que levamos – assegurou-me, explicando que eu poderia pôr à prova o que ele dizia, apenas influindo nos meus estados mentais, como, por exemplo, fixando meus pensamentos só naquilo que eu gostaria ou queria que acontecesse.

- Chico, o mundo em que você vive foi criado, primeiramente, por sua mente – assegurou-me Zeca, despedindo-se, porque seu táxi  havia chegado e ele tinha horas para chegar em casa. “Chico, Margarida é minha mulher há 50 anos e eu conheço a fera que tenho.”

Não recusei o convite e garanti que o avisaria do resultado da experiência. Acordei no dia seguinte, uma quinta-feira, pensando fixamente em ganhar uma boa grana na loteria. Por toda manhã não pensei em outra coisa, a não ser em ir à loteca mais próxima e fazer minhas apostas na Quina e Lotofácil, que corriam naquele dia. E foi o que eu fiz, com duas apostas em cada teste.

Na sexta-feira, pela manhã, entrei no site da Caixa e conferi os resultados. Na Quina, sequer acertei um número. Porém, na Lotofácil, já no primeiro bilhete, constatei que tinha acertado 11 números. Imediatamente, telefonei para o Zeca Fagundes e o informei: “Negão, a coisa do pensamento já começou funcionar e já ganhei dois reais e cinquenta centavos na Lotofácil”.

- Seu prêmio, Chico, foi do tamanho e qualidade do seu pensamento. Pense grande Chico, pense grande – respondeu-me.



Escrito por chicoflores às 01h36
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