Eu afirmo e provo: não sou decadente musical Sou desses caras que se emocionam com um fundo musical de desenhos animados baseado em obras eruditas, assim como me emociono com filmes que utilizam temas de peças sinfônicas como as valsas de Strauss e de Chopin. Posso ainda me comover, dependendo da hora e do ambiente, ouvindo o Coral da IX Sinfonia de Beethoven e até chegar às lágrimas com as “Ave Maria” de Schubert, de Gounod e de Somma, se já estiver bêbado. Tenho um senso musical bem sensível e, por várias vezes, já “paguei mico” por ser surpreendido chorando, em farrinhas comuns, em casa de amigos, por causa de uma simples música. Uma vez, na casa do jornalista Marcelo Martins, entrei em pranto quando, de um CD de músicas e intérpretes antigos, ouvi Elizeth Cardoso cantando o clássico da MPB no “Rancho Fundo”. Ninguém entendeu, só eu. Neste exato momento, por exemplo, enquanto teclo esta crônica saboreando “beer” de minha adega, estou ouvindo Andrea Boccelli cantando “Con te partirò” e meus olhos já estão úmidos. Na seqüência, virão “Romanza”, “Vivo per lei”, “Per amore”, “Canto della terra” e “Rapsódia”. E se eu ainda não tiver terminado a crônica, mas estiver sóbrio, continuarei ouvindo: “Nel cuore lei”, “Per amore”, “Voglio restare cosi” e “Il maré calmo della Serà”. Esta crônica sobre música e seus efeitos em mim foi inspirada pela conversa que tive, minutos atrás, no barzinho “Laranja Mecânica”, aqui de Jardim Camburi (Vitória ES), com Anselmo, um psicoterapeuta de Campos (RJ) que está passando férias aqui no bairro, na casa de uma irmã casada com um cara que trabalha na Vale do Rio Doce. Dizia-lhe eu, lá no bar, que a vida humana seria chata sem sons e, talvez, nem se proliferasse no planeta. Cheguei ao ponto de argumentar que músicas como “As times goes by” foram responsáveis por milhões de nascimentos. E ele, sem questionar, aduziu: “A música também é mais uma das ferramentas da decadência do espírito humano. E essa decadência está se reverberando em todas as demais dimensões espirituais”. Claro que concordei, pois achei a tese atraente e de ingredientes suficientes para animar a farra até o fechamento do bar. Uma tese excelente, sussurrei para meus botões, e até pensei em me preparar para tomar muitas. Primeiro porque tinha conteúdo concreto e segundo porque abria escancaradas brechas para questionamentos de cunhos esotérico e metafísico, mas como não queria ficar muito tempo no bar, eu me ative ao lado concreto. Por isso apenas disse que ele estava certo e que a decadência musical, no caso brasileiro específico, era fruto de uma sacanagem da indústria fonográfica aliada à mídia – jornais, rádios e TVs -, com total apoio do stablischment. Essa curriola descobriu que lixo musical dá lucro, de um lado em dinheiro grosso com a ignorância da população e de outro em dividendos políticos com aumento da alienação do povo. O Governo, por estar beneficiado, não investe em educação musical nas escolas pública e nem se interessa em criar leis obrigando as escolas particulares a ensiná-la. Portanto, os ganhos são substanciosos, pois indústria fonográfica e mídia faturam os tubos com lixo musical e o Governo ganha com a alienação, principalmente, da juventude que sequer imagina fazer música de protesto, como os jovens da época da ditadura. Na verdade, eu acho que os caras que hoje fazem música são meros picaretas e não artistas, assim como os programadores da industria fonográfica e das mídia não passam de criminosos da cultura por estimularem e aceitarem as aberrações musicais. Por via de conseqüência, um grande abismo separa a música do Brasil atual da música formadora da cultura musical brasileira predominante até quatro décadas atrás, quando o mundo aplaudia nossa musicalidade inata e copiava nossas músicas. Até quatro décadas atrás, a música brasileira, em todas as suas manifestações, motivava as pessoas a refletirem. Suas letras discorriam sobre a vida, o amor, o comportamento, a nação, a política e a família, sem perder o lirismo das rimas e nem a forma bem característica dos ritmos brasileiros. Hoje, a picaretagem é tão safada, tanto no nível da indústria fonográfica quanto da mídia, que ameaça nossa identidade musical. Aliás, depois de músicas como “Créo” e “Eguinha Pocotó”, não sei aonde a nação da parar. Eu, por exemplo, paro por aqui, pois consegui terminar a crônica ouvindo Andrea Boccelli, estou na terceira cerveja de minha adega e agora estou ouvindo Elis Regina cantando o “Bêbado e o equilibrista”. Em seguida, virão “Casa no Campo”, “Romaria”, “Louvação”, “O mestra sala dos mares”, “Canto de Ossanha” e “Águas de março”. Claro que já estou emocionado ao ponto das lágrimas e de porre, mas vou dormir tranquilo e, para agradar ao psicoterapeuta Anselmo, sem decadência espiritual.
Escrito por chicoflores às 21h00
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