Blog de chico.flores

23/08/2009

Farinha pouca, meu pirão primeiro

 

Acredito que só daqui a três ou quatro gerações, a política no Brasil será integralmente caudatária da ética e da moralidade. Acho que antes é impossível, pois o germe da corrupção está bem espraiado e arraigado na psiquê social e, na maioria dos casos, sua contaminação ainda se dá de pai para filho. Posso até estar exagerando no prazo e pode ser que o senso ético se instaure antes, mas é melhor dar alguns anos de lambuja.

 

Eu me baseio na minha experiência de vida que me leva a crer que, ao longo de mais algumas décadas, o país continuará registrando escândalos políticos que durarão enquanto a consciência ética não passar a ser um atributo de berço. Até lá, a atual mentalidade de homem público predominará e a prática política brasileira conviverá com falcatruas das mais diversas variedades, abertas ou escamoteadas.

 

Eu penso assim porque sei que todas as regiões do mundo sempre foram comandadas por filosofias de vida que se transformaram em regras de condutas. Os Estados Unidos e o Canadá, por exemplo, assumiram o pragmatismo, filosofia caracterizada pela descrença no fatalismo e pela certeza de que só a ação humana, movida pela inteligência e pela energia, pode alterar os limites da condição humana. As crianças eram ensinadas a ser e respeitar os vencedores. Na Europa, predominou o praticismo baseado no pensamento influenciado por filósofos como São Tomás de Aquino e Erasmo. Por conseguinte, o europeu valoriza o bem comum e a pátria.  

 

No caso específico do Brasil, a filosofia de vida predominante desde a colonização sempre foi a de “farinha pouca, meu pirão primeiro”. E esta filosofia perdura até hoje, como uma espécie de herança maldita da qual, só com muito esforço e perseverança dos mais jovens, o país paulatinamente se livrará, terá políticos sérios e, inclusive, poderá levar Charles De Gaulle, do seu túmulo em Colombe-les-Deux-Èglises, La Lorraine, França, a dizer “até que enfim” (jusqu'à ce que finalement). Mas, como eu disse, vai demorar, pois o processo é lento.

 

O processo será lento porque ainda estamos naquela fase em que a idéia de que política e ladroagem são sinônimos permanecerá sendo senso comum. O cara continuará querendo entrar na política para se arranjar e, de posse do mandato, só pensará em fazer fortuna à custa do erário ou de negócios espúrios, pois sabe que ficará impune. Assim, ele jamais pensará na pátria ou no seu povo e, como há 500 anos, continuará sendo um mero predador da cidadania.  

 

Na verdade, há cinco séculos, o fenômeno da corrupção só tem criado bases para acomodação, através da permissividade e da tolerância no tratamento da coisa pública. Desde o tempo da colonização, a sacanagem existe, só mudando o modus operandi de acordo com a época. “Acertos”, “negociatas” e “esquemas” sempre andaram de braços dados com a política e com ela se deram bem. Na verdade, pode-se até dizer que bem poucas fortunas brasileiras foram geradas pelo trabalho.

 

Como eu só tenho 67 anos de idade não me lembro de escândalos de passados distantes, mas posso enumerar alguns mais recentes. Por exemplo, da década de 70: Caso Lutfalla; Caso Atalla; Caso Abdalla; Caso Halles; Caso BUC; Caso Eletrobrás; Caso Áurea; Caso UEB/Rio-Sul; Caso Lume; Caso Ipiranga; Caso Dow Química; Caso Nigeriano; Caso Tama; Caso Cobec; e Caso Coscafé.

 

Da década de 80, recordo-me do Caso Capemi; Caso do Grupo Delfim; Escândalo da Mandioca; Escândalo da Proconsult; Escândalo das Polonetas; Escândalo do Inamps; Caso Coroa-Brastel; Escândalo das Jóias; Caso Imbraim Abi-Ackel; e Escândalo das Pedras Preciosas. Teve mais, mas estes foram considerados os mais cabeludos. Tanto assim que, mesmo ainda sob o tacão da censura do regime militar, pelo menos a grande imprensa do Rio de Janeiro e de São Paulo, deu boa cobertura.

 

Na sécada de 90 ocorreram: o Escândalo do INSS; Escândalo do BCCI; Escândalo da Ceme; Escândalo da LBA; Esquema PC; Escândalo da Eletronorte; Escândalo do FGTS; Escândalo da Ação Social; Escândalo do BC; Escândalo da Merenda; Escândalo do Fundo de Participação; Escândalo do BB; Escândalo do DNOCS; Escândalo do Orçamento da União; Escândalo do Banco Econômico; Escândalo do Sivam; Escândalo da Pasta Rosa; Escândalo da Máfia dos Gafanhotos; Escândalo do BNDES; Escândalo da Telebrás; Caso PC Farias; Escândalo da Compra de Votos Para Emenda da Reeleição; Escândalo da Previdência; Escândalo dos Precatórios; Escândalo do Banestado; Escândalo da Encol; Escândalo da Mesbla; Escândalo do Banespa; Escândalo da Mappin; Escândalo do Dossiê Cayman; Caso Nicolau dos Santos Neto, o "Lalau"; Escândalo da Sudam; Escândalo da Sudene; Escândalo do Proer; e o Caso Marka/FonteCindam

 

Viramos o milênio, mas a ética não conseguiu preponderar e, assim, registramos o Caso Luís Estevão; Caso Toquinho do PT; Caso Celso Daniel; Caso Lunus (ou Caso Roseana Sarney); Caso José Eduardo Dutra; Escândalo do Propinoduto; Escândalo do Valerioduto; Escândalo dos Vampiros; Caso Maurício Marinho; Escândalo do IRB; Escândalo do Mensalão; Escândalo da Secom; Escândalo do Brasil Telecom; Escândalo dos Dólares na Cueca; Escândalo do Banco Santos; Escândalo do Grupo Opportunity (ou Caso Daniel Dantas); Escândalo dos Empréstimos para aposentados; Caso do caseiro Francenildo Santos Costa); Escândalo das Ambulâncias; Caso Renan Calheiros; Escândalo dos cartões corporativos; Esquema de desvio de verbas no BNDES; e Escândalo dos atos secretos.

 

Portanto, o escândalo dos atos secretos do Senado envolvendo a velha raposa José Sarney nada mais é do que uma simples dose purgatória das que o Brasil ainda terá que tomar até purgar seu último corrupto e se tornar um país ético. Ainda vamos conviver com as sacanagens da sucessão, que não serão poucas, mas vamos avançar. Creio que nem minha neta e nem os filhos dela saberão o que é um país ético, mas os filhos dos filhos dela começarão a conceber o que é um país antiético.

 

E é tendo esta certeza e concebendo que o futuro está a favor do Brasil, e não dos canalhas, que eu vou tomar mais uma, apesar do adiantado das horas.


Escrito por chicoflores às 12h39
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