Perdi os dentes, mas não perdi o apetite Claro que a célebre frase “a juventude é uma coisa maravilhosa; que pena desperdiçá-la em jovens” não é de minha autoria, assim como não fiz nada para torná-la conhecida, famosa e aplaudida pela nata da intelectualidade idosa do mundo inteiro. Igualmente nada fiz que pudesse dar-lhe a dimensão de uma máxima filosófica irretorquível. O que me coube fazer estou fazendo agora, com atraso secular, ao torná-la tema desta crônica desinteressada e destituída de valor literário intrínseco. Faço apenas aquilo que qualquer um faria se, numa tarde de domingo chuvoso e chato como a de hoje, faltando mais de uma hora para assinar presença no bar “Laranja Mecânica”, se lembrasse que já tem 67 anos de idade. Como disse, a frase não é minha, mas, sim, do escritor e dramaturgo irlandês George Bernard Shaw, que a deve tê-la pronunciado naquele primeiro momento em que todo homem se dá conta de que ficou velho. Não sei se a inesperada constatação da velhice o aborreceu e levou-o a estigmatizá-la, ou se ele disse “youth is a wonderful thing. What a shame to waste it young” levado apenas pelo saudosismo. De qualquer maneira, não estou de acordo com a frase do George. Digo isso com toda sinceridade e até vou mais adiante, acrescentando que não gostaria de, num passe de mágica, voltar a ser jovem, o que para mim seria um desastre. Digo desastre porque, logo de cara, perderia a minha deliciosa condição de aposentado. Voltando a ser jovem, eu teria de voltar a trabalhar e estaria condenado a reviver todo aquele período de vida que eu já coloquei nos escaninhos da História. De maneira nenhuma eu toparia uma empreitada dessas. Sou velho, mas não sou maluco! E até afirmo com toda convicção: nem mesmo quando já estiver senil pensarei numa asneira desse quilate. Eu adoro a minha velhice e faço dela a minha maior inspiração de vida. Não quero nem saber se apareceu ou não mais alguma ruga e que, a cada dia, estarei ficando mais velho. Às favas com tudo isso! Preocupo-me apenas em nunca mais cair na tentação de aceitar qualquer convite para retornar à ativa. E peço sempre a Deus que me livre desse tipo de cálice. Estou muito bem na condição de lobo velho que perdeu os dentes, mas não perdeu o apetite. E por falar em apetite, daqui a pouco vou provar os bolinhos de queijo que o barzinho Laranja Mecânica introduziu no seu cardápio de tira-gosto. Garanto que vou gostar e até trazer para casa uma porção para o meu breakfast de amanhã.
Escrito por chicoflores às 11h32
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