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| 23/04/2009 |
Eu e o Job da Bíblia não temos nada em comum
Quando eu digo, na roda de colegas de copo aqui do bairro, que militia est vita hominis super terram, não estou querendo esnobá-los e nem tampouco demonstrar cultura. Ao contrário, meu desejo é o de apenas acentuar o significado dessa sentença ditada há mais de dois mil anos e que está na Bíblia (Job 7,1), à disposição de qualquer um. Só não aceito que ela seja generalizada, ao ponto de ser imposta a todo mundo. Aliás, nas vezes em que eu a pronunciei, corroborando algo que tenha dito no calor de um debate de mesa de bar, jamais a coloquei como um estigma para a humanidade em geral, mesmo porque, se assim fosse, no meu caso específico ela não passaria de "letra morta". Falo isso com toda a sinceridade, pois, particularmente, em relação a mim, a sentença de Job não tem valor algum, inclusive, nem sei porque teimo em usá-la como argumento. Acho que é influência do meu amigo advogado Antônio Barcellos, que uma vez me confidenciou: "Negão, 10% do que escrevo nas petições são em Latim. E faz um efeito danado...". Eu, por exemplo, que sou um feliz aposentado, hoje me levantei, como sempre, às 10 horas e fiquei coçando o saco até ao meio dia. Não havia nada para fazer, a não ser olhar o dia, avaliar as condições do tempo e da temperatura e, de vez em quando, apreciar o movimento da rua sentado na varanda. Depois do almoço, entreguei-me de corpo e alma, como sempre, à improtelável soneca da tarde. Acordei uma hora depois, enlevado por aquela sensação de bem estar digna de um anjo de primeira hierarquia e, aí sim, à guisa de fazer alguma coisa, liguei o computador e naveguei pelos sites de notícias, desinteressadamente. No momento, estou me preparando para tomar as geladinhas do dia, tendo a certeza de que estou em paz com o mundo, a humanidade e comigo mesmo. Vai daí, posso conclui que a sentença de Job não mais me diz respeito, pois dela me livrei, quando me aposentei, e minha vida aqui na terra deixou de ser uma eterna luta.
Escrito por chicoflores às 18h45
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| 22/04/2009 |
Tem vezes que eu peço socorro a Kafka De Franz Kafka, na minha juventude, eu só li, mas não terminei porque não tive saco para chegar ao final, o seu conto "Um Médico Rural". Era muito surrealista para meu gosto, na época com 16 anos e pragmático por força da intensa carga hormonal que me mantinha eternamente preso à realidade. Para dizer a verdade, eu parei de ler na parte em que, como num passe de mágica, aparece uma cabana saindo do nada. O enredo é o seguinte, me lembro bem: um médico sai de sua casa para visitar um garoto doente, em uma noite fria. Até aí eu fui e enfrentei aquela série de eventos que eu chamava de coisas de doido que acorrem após a viagem dele, mas desisti com o aparecimento da tal cabana. Também, com Sandra, uma vizinha de 15 anos me provocando da janela da casa dela contígua à minha, jamais poderia prossegui. Todavia, isso não quer dizer que menosprezei Franz Kafka, para mim um dos maiores escritores de ficção da língua alemã do Século XX. Apenas explico que meu contato com sua obra seu deu muito cedo e eu ainda não tinha maturidade para encará-la e assimilá-la. Por isso eu me perdoo, só que relendo o mesmo conto mais tarde, percebi um paradoxo: ele não escreveu para velhos. Perdi minha oportunidade de lê-lo. Porém gosto de me lembrar dele e de citá-lo sempre que posso, como nesta manhã, em que fui instado a perder a paciência diante de um grupo de evangélicos que bateu insistentemente em minha porta até que eu a abri. "Viemos em nome de Jesus para lhe dar a salvação", diziam em voz alta, quase gritando. Eu me senti o próprio Satanás, num primeiro momento, tamanha era agressividade do grupo. Aliás eu já me acostumei com as investidas desses fanáticos em minha casa, nestes cinco anos morando aqui em Jardim Camburi, Vitória (ES). Acredito até que, como são muitas as seitas existentes no bairro, elas concorrem entre si acirradamente e não medem esforço para aliciar almas. E como hoje foi feriado, acho que todas as seitas caíram em campo, perseguindo os incautos que estariam em casa. Eles gritavam ininteligíveis passagem bíblicas e, quando, começaram a entoar uma algaravia à guisa de hino, eu interpelei em voz alta: "eu me rendo" e repeti, levantando os braços: "tá bem, eu me rendo, eu me rendo!". Eles se calaram e eu aproveitei a trégua momentânea e retruquei: "eu sou um discípulo do grande evangelizador Franz Kafka. Sua igreja ensinou quem ele é e vocês sabem que ele disse: "jamais perturbeis um cristão, se ele estiver de portas fechadas, pois ele estará orando." Bom, eles se foram e eu elevei meu pensamento e pedi perdão ao Franz, garantindo que isso não se repetiria, jamais.
Escrito por chicoflores às 01h12
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BRASIL, Sudeste, VITORIA, JARDIM CAMBURI, Homem, Portuguese, Portuguese, Bebidas e vinhos, Música Outro -
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