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| 07/02/2010 |
Voltaire também serve para desestimular uma briga Eu ainda não havia completado 20 anos, quando li minha primeira obra de autoria do filósofo francês François-Marie Arouet, o Voltaire, que, diga-se de passagem, na época me pareceu tão hermética e sibilina que não perdi tempo lenda-o até o final. Do que li não assimilei nada, mas tampouco me preocupei com isso, pois naquela idade, filosofia para mim resumia-se a um único conceito: “Melhor um peito na mão do que dois no sutien”. Claro que o inexorável tempo se impôs, fiquei mais velho e os livros de Voltaire que passei a ler a intervalos regulares já não me eram ininteligíveis. Cheguei até a colecionar frases do filósofo, mas sem que as tornasse dogmas, a ponto de influenciar minha maneira de viver e de encarar a vida. No máximo, concordava com tudo que ele escrevia e difundia seus conceitos, sempre que tinha oportunidade. Foi num encontro hoje à tarde com Zeca Bonella, numa das barbearias aqui do bairro, que usei um velho e bom conceito voltairiano e consegui impedir uma briga. O Zeca é um velho aposentado como eu e que, também assim como eu, só faz a barba e corta o cabelo de mês em mês. Se bem que, se em mim a calvície estivesse tão avançada quanto está nele, eu não me preocuparia com o cabelo e deixaria a natureza cumprir o seu papel. Mas, como eu ia dizendo, conversava com Zeca e a conversa girava em torno de sucessão presidencial, coisa que já não dou muita importância. Mesmo assim, prestava-lhe toda atenção e não me recusava em responder, nas vezes em que ele me perguntava: “Eu não estou certo, Chico?”. E eu prontamente dizia que “sim”, estimulando-o a continuar com um eloqüente discurso de apoio à candidatura de Dilma à Presidência da República. - Você acha, Chico, que eu vou querer interromper a trajetória de um tipo de governo que não está maltratando tanto assim os aposentados? Ao contrário, farei o que estiver ao meu alcance para mantê-lo no poder – exclamava Zeca, entusiasmado a ponto de se emocionar – acrescentando: “Chico, agora já estamos tendo aumentos reais de salário e podemos contar com o décimo terceiro pago em duas parcelas, setembro e dezembro”. Havia mais três clientes na barbearia esperando a vez de serem atendidos e que pareciam estar prestando atenção ao discurso, menos um que, levantando-se de sua cadeira, postou-se diante do Zeca e, com o dedo em riste e cara de poucos amigos, bradou visivelmente exaltado: ”Você não passa de um velho tolo e senil que não sabe o que está dizendo. Cale essa boca murcha e vai para casa rezar e esperar a morte”. O Zeca também se levantou e esperou a fera. O mesmo fiz eu, colocando-me entre os dois, sem sequer me importar que poderia servir de alvo para primeira porrada. Mas não atinei para o perigo e, demonstrando estar decidido a comprar a briga, me empertiguei o mais que pude, para me apresentar mais alto e forte e impressionar o opositor, e caprichei numa resposta que achei bem ofensiva: “Ele é velho e você não passa de uma besta quadrada, cara”! Na verdade, eu mesmo me surpreendi com minha reação em defesa do Zeca, mas continuei encarando o indivíduo que passou a me olhar como se estivesse me avaliando. Um silêncio de vários segundos, que me pareceram uma eternidade, instalou-se na barbearia, com ambos encarando-se firmemente, até que ele se manifestou, indagando-me rispidamente e com aquela veemência de brigão: “E quem é você para tomar as dores dele”? -Eu sou irmão de armas dele - disse, completando com uma famosa frase de Voltaire: - Posso não concordar com nada do que ele disse, mas defenderei até a morte o direito de ele dizer –. E fiquei esperando a reação do cara, já imaginando os incômodos dos hematomas e escoriações que eu teria de suportar por alguns dias. Porém, por sorte minha entrou a turma do "deixa disso" e o Zeca puxou-me de lado e sussurrou: “Não vale a pena, Chico. Vamos embora tomar umas cervejas no bar do coreano, que é mais saudável do que brigar”. Eu concordei aliviado e saímos da barbearia a passos rápidos. Foi o próprio coreano quem nos atendeu, pois nem Aninha e nem Felipe, que são garçons do bar, haviam chegado. Mas foi o Zeca quem serviu a bebida, enchendo primeiro o meu copo e depois o dele, e sugerindo um brinde a Dilma. Aceitei, mas acrescentei: “Um brinde também a José Serra, Ciro Gomes e Marina Silva”. Rimos e bebemos o primeiro copo de gut, gut.
Escrito por chicoflores às 19h44
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| 25/01/2010 |
Ainda serei um feliz dono de fábrica de cerveja Ao longo dos últimos 15 dias, resolvi arrefecer um pouco a minha preguiça crônica e colocar em dia minhas leituras esotéricas e metafísicas. No mínimo, dois livros e três monografias eu tinha de ler para me atualizar. Porém, não foi fácil, logo no início, convencer meu corpo a aceitar a empreitada, pois os bilhões de células de todos os órgãos já estavam contaminadas pelo ócio e imediatamente reagiram contra. Tive de ter muita paciência e usar uma enxurrada de argumentos para fazê-las entenderem que eu estava diante de uma obrigação irremediável. Mas cedi em alguns pontos, como: a) não faria leitura longa; b) só leria à noite, quando já estivesse deitado; c) não interromperia qualquer divagação da mente, mesmo se ocorressem nas partes da leitura que necessitassem de maior concentração; e d) pararia de ler ao menor sinal de sono. Mentalmente assinei um documento, que me foi entregue pelo cérebro, me comprometendo com os quatro itens, e me senti liberado para iniciar minha programação de leitura. Mesmo assim, uma ambiência pesada provocada pela desconfiança da parte deles se impôs, nos dois primeiros dias. Cheguei até a ouvir imprecações e ameaças como: “Esse filho da puta está nos traindo e acabaremos voltando a trabalhar” ou “vamos boicotar essa porra”... Mas, se acalmaram após comprovarem que eu estava cumprindo o acordo. Aliás, no primeiro dia, houve uma tentativa de boicote promovida pela minha mente. Eu ainda não tinha completado cinco minutos de leitura, quando ela me desviou para uma divagação em que eu estava em cima de um cavalo que galopava nas areias da Praia de Camburi. Em seguida, trocou o cavalo pelo meu primeiro avião ultraleve que sobrevoava a Praia da Costa, em Vila Velha (ES), em baixa altitude, quase lambendo a água, um tipo de vôo de risco que sempre gostei de realizar, antes de pendurar meu macacão, minha jaqueta e meu capacete de vôo para sempre. Não interferi e me deixei levar pelas digressões da mente que não duraram muito. E assim, pude levar adiante o meu programa de leitura, pelo menos por uns 40 minutos diários, antes de pegar no sono. Minha intenção foi conhecer os progressos na abordagem e na argumentação de uma temática que sempre fascinou aqueles que buscam respostas para “quem somos?”, “de onde viemos? e “para onde vamos?”. E constatei avanços, principalmente, em relação ao tema “reencarnação”. Aliás, reencarnação sempre foi a idéia central de diversos sistemas filosóficos, segundo a qual, uma porção do Ser é capaz de subsistir à morte do corpo. Chamada espírito ou alma, essa porção seria capaz de voltar a se ligar sucessivamente a diversos corpos para a consecução de um fim específico, como o auto-aperfeiçoamento, aprendizado e anulação de carmas. Todavia, muitas indagações ainda ficavam no ar, dando margem a controvérsias, mas nas minhas leituras constatei que já há novidades. Juntando o que li dos americanos Ian Stevenson e Joseph Richard Myers, e nas monografias sobre Abdruschin, pseudônimo do alemão Oskar Ernst Bernhardt, por exemplo, cheguei à conclusão, a grosso modo, de que alma ou espírito são energias especializadas em dar vida, mas que estão ligadas à energia cósmica. E como no Universo não há perda de energia, a alma ou espírito não se dissipam com a morte do corpo e, sim, ao contrário, voltam a dar vida a outro corpo, num ciclo inexorável e infinito de morte e vida que começou com a formação do próprio universo. Apenas por ter chegado a essa conclusão eu já me dei por satisfeito e conclui meu programa de leituras. Também, todos os órgãos do meu corpo exultaram com o término do sacrifício que eu os impunha e ficaram aliviados. Deu até para comemorar o retorno ao ócio total com cerveja e tira-gosto de lingüiça frita, no Laranja Mecânica. E foi ainda na farra comemorativa que aventei a hipótese otimista de, na minha próxima encarnação, ser dono de uma fábrica de cerveja.
Escrito por chicoflores às 20h14
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| 14/01/2010 |
Ano Novo, preguiça renovada e mais fortalecida Um desejo feito, principalmente em ocasiões sublimadas como a passagem de ano, concentra imensurável quantidade de energia e tem muita chance de se realizar. Inclusive, se recebeu de moldura uma carga emocional intensa que gerou lágrimas, as chances de sua concretização, em curto prazo, são muitas e pode causar surpresas. A própria ciência já aceita esse fenômeno psíquico e se esforça para explicá-lo racionalmente como uma inerência humana. O "Mentalismo”, por exemplo, que se denomina “Ciência do Poder da Mente", ensina que a força mental é o princípio, o meio e o fim de tudo, concreto ou abstrato, e que é possível ser manipulada. Assim, segundo um consenso já formado, o humano poderá ter o que quiser se souber criar o molde disso em seus próprios pensamentos. Não há sonho que não possa tornar-se real para aqueles que aprendem a usar a força mental inerente a todos, e a chave é o pensamento criativo que, diga-se de passagem, é uma concentração de energia pura. Eu, particularmente, não creio e nem descreio, pois se a coisa funciona dessa maneira, ou não, de nada adiantará minha opinião contra ou a favor. Só sei que também tenho meus desejos – alguns impossíveis de se realizar por causa da minha idade -, e sempre que a ocasião os justifica manifesto-os e fico na minha, esperando que aconteçam. Na passagem de ano, também externei vários desejos, assim como todo mundo. Fiz questão, primeiro, de reafirmar alguns como “jamais quero voltar a ter patrão ou chefe”, apesar deste já estar bem cristalizado no meu subconsciente. Na seqüência, desfiei um imenso rosário deles, enfatizando um ou outro que eu considerava mais importante. Passados os primeiros 15 dias, posso dizer que, pelo andar da carruagem, este novo ano deverá entrar no rol dos mais felizes de minha vida. Digo isso porque coisas agradáveis começaram a acontecer, deixando-me otimista. Acho que até a virada para 2011, ainda terei gratas surpresas com direito a comemorações em merecido grande estilo. Não comecei o ano com aqueles 144 milhões de reais no bolso pagos pela Mega-Sena e nem tampouco acertei as dezenas sorteadas da Lotofácil, Lotomania e outras tipos de jogatinas oficiais que ajudam o Governo a encher as burras. Mas, uma sutil transformação no meu inconsciente aconteceu e eu fiquei mais preguiçoso que em 2009. Até me dar conta, eu achava impossível isso acontecer, pois sempre me esforcei ao máximo para tornar minha condição de preguiçoso imbatível. Todavia, estou contente, pois consegui que, pelo menos, uma parte dos meus desejos relacionados ao meu bem-estar geral se concretizasse. Ficarei, agora, na expectativa do restante. E como já são 18 horas, vou tomar as minhas geladinhas. Só que em casa, na minha varandinha, pois hoje estou com preguiça de andar até o Laranja Mecânica.
Escrito por chicoflores às 18h26
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| 31/12/2009 |
Entrarei de cabeça em 2010, mas sem pensar em trabalho Mesmo antes de acordar hoje (31/12), no meu horário habitual das 10 horas, percebi que eu já me sentia em clima de reveillon. Todo o meu corpo, sob efusivos aplausos do meu espírito, estava em festa e minha mente borbulhava uma variedade imensa de pensamentos felizes e coloridos. Não me lembro de ter passado, em outros finais de ano, por uma euforia tão esfuziante como a desta manhã, logo assim que abri os olhos. Saltei da cama com a agilidade de uma criança e, sem ir antes ao banheiro para as abluções matinais, primeiro corri para a cozinha, abri a geladeira, peguei uma latinha de cerveja e, depois do primeiro gole, disse para mim mesmo: “a vida é bela”. E como fundo musical cantarolei “Per Amore”, uma das canções italianas que gostava de ouvir na voz de Enrico Caruzo, mas que, na falta dele, contento-me com Andréa Bocelli. Sei que a virada do ano é um momento impositivamente festivo e todos os estímulos possíveis e imagináveis tentam levar as pessoas à euforia. Claro que há exceções, pois nem todo mundo tem motivos ou saco para integrar as comemorações. Todavia, motivado ou não, com disposição ou não, na verdade, se o cara estiver vivo, gostando ou não, será envolvido pelo clima festivo. No mínimo, só dormirá após as comemorações. Aliás, pela própria tradição, a festa do Ano Novo é a que mais contamina os humanos - de bem ou de mal com a vida -, e isso desde muito antes da Era Cristã, segundo nos ensinam as enciclopédias. E, assim como hoje, também naquele passado remoto, as maneiras de comemorar a passagem de ano se assemelhavam: enchia-se a cara, faziam-se oferenda aos deuses e cada um manifestava seus desejos. E tinha cada desejo... É mais ou menos (prefiro ficar no “mais”) o que já comecei a fazer desde que acordei. Serei diferente apenas na parte das oferendas aos deuses (hoje concentradas em Iemajá), pois esse tipo de comemoração não me atrai, mas o resto, sim. Encherei a cara e manifestarei meus desejos em relação ao ano que se inicia; desejos que dizem respeito a mim, aos meus próximos, aos amigos, à humanidade em geral e ao Planeta. Como aos meus próximos e aos amigos que encontrei pessoalmente, me telefonaram ou me enviaram e-mail, já antecipei meus votos de “felicidade, saúde, paz e prosperidade”, está faltando declarar meus desejos em relação ao Planeta, à humanidade em geral e a mim, mas farei isso na virada do ano. Mas posso adiantar que, em relação à humanidade, desejarei que ela não apresse a sua extinção; e em relação ao Planeta, manifestarei meu respeito ao seu aquecimento, mas implorarei que não chegue ao ponto de acabar com cerveja gelada para sempre. Em relação a mim, um velho aposentado muito feliz e saudável (apesar de brocha, mas isso faz parte da idade e é natural), me restam os desejos de ganhar a “Mega-Sena da Virada” sozinho, de continuar em paz comigo mesmo e com o mundo, e o de acordar amanhã com a certeza de que haverá, sobrando na geladeira, latinhas de cerveja suficientes para o tratamento VIP que quero dispensar à minha primeira ressaca de 2010.
Escrito por chicoflores às 18h33
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| 28/12/2009 |
Não aceito idéias de jerico Várias áreas da ciência – e não apenas os mestres esotéricos e metafísicos isolados – não têm mais dúvidas quanto ao poder da mente humana. Já fizeram profundas pesquisas de campo, isolaram exemplos dinâmicos do funcionamento mental e, inclusive, publicaram compêndios irretorquíveis e livros de sucesso garantindo que todos os seres humanos vivem o que foi criado primeiro em seu mundo mental. Coisa de maluco? Não sei nem quero saber, pois eu cheguei naquela idade em que não discuto mais nada, apenas ouço e pronto. Dizem que isso é sabedoria, mas para mim é a forma de poupar os aborrecimentos que todo embate de idéias, ideologias, conceitos e/ou crenças acaba trazendo. Na verdade, faço o que meu velho avô (que Deus o tenha) me ensinou: ”Quando a coisa não coisa a gente não aquele, faz que nem”. Mas, por via das dúvidas, permaneci em alerta boa parte do dia de hoje. É que logo pela manhã, quando, ainda na cama, me espreguiçava para afastar umas persistentes réstias de sonolência, pensei em tirar umas férias. De imediato, achei que tudo não passava de algum entulho quimérico da noite de sono bem dormida bêbado e até disse para mim mesmo: ”Negão, você ainda está sonhando. Aposentado não tira férias”. Como eu tinha acordado no meu horário normal das 10 horas, preocupei-me apenas em fazer todo o possível para transformar meu primeiro sábado da semana em mais um dia feliz. Aliás, mesmo depois de aposentado, eu jamais deixei de reverenciar os sábados, mesmo desfrutando do privilégio de ter seis deles depois de cada domingo. Claro que, às vezes, eu os confundo com o domingo, mas isso é outra história. Mas, como eu ia dizendo, levantei-me, fui à varanda do quarto e dei um “bom dia” bem alto ao dia que para mim ainda estava raiando, e me preocupei com os afazeres impostos a qualquer pessoa recém-acordada e de ressaca. Só que, ao longo do dia, o mesmo pensamento voltou e persistiu até se tornar recorrente, como uma paranóia sem sentido, despropositada e injustificável do ponto de vista médico. Mesmo assim, resolvi encará-lo colocando meu lado racional contra o mental e questionando em voz alta: como devem ser as férias de quem já adquiriu o direito à ociosidade plena? É ficar sem a obrigação de ir trabalhar? É não fazer nada durante um mês? É dormir sem a preocupação de perder o horário de pegar no batente? É encher a cara sempre que quiser, sem drama de consciência? É poder ficar o dia todo em casa, sem receio de que os vizinhos achem que você perdeu o emprego? Eu procurava ser mais enfático nos argumentos e mais peremptório na formulação deles, pois sabia que a insistente idéia das férias poderia contaminar minha mente e, daí em diante, azedar o meu dia e tumultuar o meu tranqüilo mundo mental, a ponto infernizar a vida. Eu tinha, portanto, que neutralizá-la imediatamente e de qualquer jeito, e parti para a ignorância, impondo-me no grito: - Escute aqui, dona idéia idiota, burra e imbecil. Tirar férias, no meu caso, é abdicar do meu doce far niente e me submeter a 30 dias seguidos de trabalho com chefe, horário de entrada e de saída e as aporrinhações inerentes. Por isso, suma, desapareça, desocupe a minha mente e jamais volte a se manifestar – conclui, sendo aplaudido efusivamente por todos os órgãos do meu corpo. O mais gratificante de tudo é que uma placidez envolta numa densa áurea de quietude predominou em minha mente, deixando-a tranqüila. E assim ela está até agora e continuará, pois já passam das 19 horas e tenho que comemorar a chegada do meu primeiro sábado da semana. Vou para o Bar do Gaúcho tomar umas geladas e não pensar mais em nada, a não ser na minha gostosa vida de aposentado. Fui....
Escrito por chicoflores às 20h01
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| 21/12/2009 |
Um pequeno Conto de Natal Magrelo, como era chamado pela turma que com ele perambulava diariamente pelo bairro Jardim Camburi, Vitória (ES), sempre à cata do que comer, foi o último a chegar embaixo da marquise da padaria Pão Chic, para dormir. Tinha ficado mais tempo apreciando o movimento no calçadão da Praia de Camburi e não se dera conta do avançado da hora. Também, nunca vira movimentação tão grande de gente à beira-mar, como naquela sua primeira véspera de Natal como menino de rua, e isso o distraíra. Tinha sete anos de idade e era o mais arisco da turma, mas não percebera a dispersão do grupo; mesmo assim não se apressou em chegar ao abrigo usado atualmente. Já dormira em outros, porém, achava o da padaria mais confortável, pois protegia melhor em noites de chuva. Outra vantagem que Magrelo percebera logo na primeira noite, dias atrás, era que, por ser espaçoso, a turma não precisava dormir amontoada. Cada um tinha seu canto próprio e todos respeitavam. A exceção ocorria quando algum outro menino de rua maior que eles aparecia no bairro. Aí, sim, dormiam quase agarrados uns nos outros, ficando sempre um em alerta. Como havia dois dias que chovia e estava frio, Magrelo, resolveu primeiro passar nas proximidades dos três supermercados do bairro onde, se estivesse com sorte, poderia encontrar caixas de papelão nas lixeiras. “Caixas grandes de papelão dão um bom colchão e ainda servem de cobertor”, pensou, apertando o passo. Teve sorte e encontrou logo duas. Toda turma já estava acomodada sob a marquise da padaria, quando Magrelo chegou. Dois já haviam caído no sono, mas Bento, alguns meses mais novo, o estava esperando preocupado, mas tranqüilizou-se e agradeceu quando recebeu uma das caixas grandes de papelão. “Brigado, Magrelo, vou fazer de conta que é meu presente de Natal”. Magrelo riu e se preparou para dormir. Primeiro desmontou a caixa de papelão, estendeu-a no chão da marquise, deitou, mas antes pegar no sono, sussurrou contrito: “Papai Noel, eu quero ganhar uma bicicleta. Não precisa ser nova, não”. Em seguida, vencido pelo cansaço e, apesar da barriga vazia, caiu em profundo sono. No sonho - que além de uma intensa luz que o ofuscava via-se também perseguido por um garoto de rua bem maior que ele -, Magrelo tentava encontrar sua bicicleta para se livrar do perseguidor. Estava na dúvida se a havia deixado minutos antes na pracinha da Igreja ou na pracinha da Bocha, mas optou pela segunda e em direção a ela correu. De longe viu sua bicicleta encostada ao lado do restaurante da Nil, onde sempre conseguia bons bocados de comida para ele a sua turma. Estava quase chegando, mas o menino maior que ele estava apenas a uns dois metros atrás e se aproximando mais. Magrelo sentiu a mão dele agarrar seu ombro com força. Acordou agitado com Bento ao seu lado sacudindo-o e chamando para desocupar a marquise, pois o dia havia raiado e a padaria não demoraria abrir. Ainda meio sonolento, mas aliviado, sentou-se na folha de papelão, olhou para os lados à procura do presente que pedira a Papai Noel e, ante a decepção, exclamou com raiva, surpreendendo a turma: - Poooorra! Não se pode, mesmo, esperar nada de um velho viado!
Escrito por chicoflores às 13h58
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| 11/12/2009 |
Eu ainda não estou quites com a ufologia Pelo que eu me lembro, jamais houve um tempo na minha vida em que eu não estivesse em estado de expectativa. Sempre estou esperando alguma coisa e/ou almejando intensamente alcançar alguma coisa, como um eterno condenado a uma frenética busca interminável. Eu praticamente vivo manietado por uma incontrolável sensação de insaciedade que me acompanha desde que passei a me entender por gente. Lá pelos meus dez anos de idade, por exemplo, meu grande desejo era crescer logo, tornar-me do tamanho de meus pais e ser um adulto para fazer tudo que os adultos faziam e eu não podia fazer. Esperava que, crescendo, teria o mundo em minhas mãos, compraria tudo que quisesse, iria onde me desse na telha e, o que era importante em minha opinião, não haveria ninguém para me dar ordens e eu seria dono do meu nariz. Agora, como um velho, desejo ardorosamente que o tempo não passe. Não é porque eu tenha medo de um dia, inexoravelmente, ter de prestar contas ao Barbudo lá de cima. Não é isso, não. O que ocorre é que, enquanto eu puder prolongar minha presença neste grande botequim - pois é assim que eu sempre entendi este planeta -, continuarei tomando minha cerveja e agradecendo toda vez que ela me for servida gelada. Como eu disse, sempre vivi à espera de alguma coisa e, enquanto essa coisa não fosse encontrada ou ocorresse, eu não descansava. Até passava anos inteiros fixado no mesmo propósito e dele jamais me desviava. Inclusive, nesses períodos mórbidos, pois não me concentrava em mais nada, o pensamente constante funcionava como um implacável instrumento de tortura mental, exasperando cada vez mais o meu desejo. Na atualidade, por exemplo, o meu torturante desejo é o de ver um disco voador. Não quero ter contato de nenhum grau com ETs que estiverem dentro da nave ou sequer obter alguma prova de que os caras existem, mesmo. Esse não é meu interesse, já que não gostaria de entrar na mundial polêmica sobre a existência ou não vida fora da terra. Gostaria apenas de ver uma espaçonave de origem extraterrestre. Hoje, mesmo, acordei pensando nisso, talvez motivado pelos poucos minutos que fiquei ontem à noite, antes de ser vencido pelo sono, assistindo ao documentário “Universo”, que está em cartaz num dos canais de TV a cabo. Aliás, hoje, sexta-feira, é um dia excelente para se ver disco voador e até bater papo com os tripulantes. Tudo depende da intensidade da sede e da localização do barzinho, pois o resto a cerveja completará. Não pode ser de dia, pois fica chato ver disco voador com sol quente e no horário em que todo mundo ainda está trabalhando. Tem que ser ao longo da happy hour, quando ninguém achará estranho, a não ser, claro, o dono do estabelecimento, que pode pensar que o freguês já está bêbado e aviltar a conta. De resto não há inconveniente, pois eu mesmo já assisti a diversos contatos imediatos, às sextas-feiras à noite, em barzinhos. Mas, voltando ao assunto: como ainda era de manhã e eu não tinha nada para fazer, além de coçar o saco, sentei-me na varanda, de onde, instantes depois, pude ouvir parte da discussão entre Maria da Penha e Alfredinho Moreira, um casal que é meu vizinho de prédio. Percebi que ela estava furiosa e o pobre do Alfredinho acuado, pois o que chegava aos meus ouvidos eram imprecações e pedidos de desculpas. - Não aceito mais essa mulher cantando em minha casa – vociferava Maria da Penha. - Meu bem, ela é um clássico da MPB e eu já era fã dela muito antes de conhecer você. - Não me interessa – continuava Maria da Penha, agora aos gritos. – E quer saber mais? De agora em diante, a única voz de mulher que você vai ouvir nesta casa será a minha. - Não faça isso, Penha! Você vai destruir uma relíquia em vinil que só é encontrada em museus de imagem e som. Só que o pedido de Alfredinho não adiantou, pois, em seguida, eu vi uma verdadeira esquadrilha de discos de Ângela Maria sair voando do apartamento do casal e se espatifando na rua três andares abaixo. E ainda achando graça do inusitado entrevero do casal, comentei para mim mesmo: “Chicão, agora você está vendo discos voadores; pena que esse tipo de contato não seja reconhecido pelas entidades ufológicas”.
Escrito por chicoflores às 19h17
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| 05/12/2009 |
Imitar relincho de cavalo é muito difícil Nos meus muitos anos de bebedor de cerveja, protagonizei histórias e mais histórias como esta que passo a contar: “Um ruído intermitente, que depois de dissipados os vapores plúmbeos do sono percebi, ainda bêbado, que saia do interfone, me acordou. O clarão do dia já se infiltrava pela fresta inferior da porta da varanda e o relógio em cima do criado mudo marcava 6h15m. Vociferei um “pooorra!!!” bem alto e, cambaleante e torturado por um gosto de sopa de cabo de guarda-chuva velho azeda na boca, atendi: “Prossiga”. - Seu Chico, seu cavalo chegou – foi o que disse secamente, do outro lado da linha, o porteiro do Edifício Praia da Costa, um prédio de kitinetes localizado na Praia da Costa, Vila Velha (ES), bem atrás do Restaurante Chuá Quibe, de saudosa memória. - A pessoa que deixou o cavalo disse também que ele já foi alimentado, mas que é bom dar-lhe bastante água – acrescentou o porteiro. Na verdade, eu não sabia o que dizer, pois nem mesmo conseguia raciocinar. Minha ressaca estava apenas começando e meu corpo só pedia cama e mais algumas horas de sono, para poder retomar a funcionalidade plena. Assim, não dei importância à mensagem do porteiro e optei por voltar a dormir. Mas, instantes depois, o ruído insistentes do interfone me despertou novamente. - Chicão, seu cavalo está amarrado no portão principal do prédio, o que é proibido –. Agora, quem estava na linha era Roberto, o síndico. - Roberto, eu cheguei de madrugada, estou de ressaca e não dá para aceitar uma brincadeira desse tipo. Deixe-me dormir primeiro; recuperar-me do porre. Depois, estarei pronto para qualquer gozação - retruquei. - Eu não estou brincando... É sério mesmo... Seu cavalo foi deixado na porta do prédio e eu quero avisá-lo que não temos vaga na garagem para cavalo. Vesti uma bermuda e, sem camisa e descalço, desci até a portaria do edifício, onde me aguardavam o síndico e o porteiro que, pela expectativa evidenciada na maneira como me olhavam, concluir que eu estava com um grande problema. E como ambos apontavam para a saída principal do prédio, foi para lá que me dirigi e me deparei com um animal de péssima aparência, magro e cheio de chagas me encarando. Sentei-me num dos degraus dá pequena escadaria de acesso à portaria do prédio, a menos de dois metros do animal, e Roberto sentou-se ao meu lado. - Que porre, Chicão!!! Desses de comprar cavalo eu nunca tomei, não. Não respondi à gozação, pois tentava em vão me lembrar do que havia dado origem àquela aquisição despropositada. A amnésia alcoólica não me deixava lembra de nada, a não ser de estar tomando chope preto no Chuá Quibe já pensando em vir para casa, quando chegou Renato, que morava no mesmo prédio e que, como eu, estava vivendo os primeiro dias da experiência de recém-descasado. Daí em diante, minha memória não registrava mais nada. - Renato já saiu de casa? – perguntei ao síndico ainda sentado ao meu lado na escada. Como ele me respondeu que achava que não, levantei-me, entrei no prédio e usei o interfone da portaria. Fiquei aliviado quando o próprio Renato atendeu e não a sua provocante faxineira Marina, uma mulata de seus 25 anos e dotada de um corpo de passista de escola de samba que era cobiçada por todos os solteiros e descasados moradores do Praia da Costa. Renato jurava que seu relacionamento com ela era puramente profissional, mas sempre nos perguntávamos por que ela não aceitava outros contratos. - Aqui é o Chico, Renato, e estou apavorado. Diga-me: você sabe alguma coisa sobre um cavalo... - Se é sobre aquele que você comprou ontem, no Chuá Quibe, eu sei – respondeu Renato às gargalhadas. Deixando-me ainda mais desesperado, contou-me que eu já estava bêbado, depois de ter trocado o chope preto pelo “cuba libre” (coquetel de rum com Cola-Cola), e havia bebido uns cinco ou seis copos, quando, em frente ao bar, passou um homem puxando um cavalo visivelmente maltratado. – Aí, você disse que não tolerava maus-tratos de animais, levantou-se e foi conversar com o cara. Eu o acompanhei e testemunhei o esporro que você deu no dono do cavalo, que o encarou, entregou-lhe as rédeas do animal e respondeu seca e rispidamente que o venderia por qualquer dinheiro. Você aceitou, pediu-me para preencher o cheque, assinou-o, entregou ao cara e ordenou-lhe que deixasse o cavalo em frente ao prédio, pela manhã. - E ele disse onde morava ou coisa assim? – perguntei a Renato. - Pelo que eu entendi, Chico, acho que é num barraco que fica próximo da Terceira Ponte, na direção do quartel do Exército, bem atrás do nosso prédio. Agradeci, desliguei o interfone, desci a pequena escada, abri o portão do prédio, desamarrei o cavalo e o levei até onde, possivelmente, estaria o seu ex-dono. E não foi difícil encontrá-lo, pois identifiquei o tal barraco por causa de uma carroça vazia estacionada à sua frente. Cumprimentei-o e disse-lhe que não ficaria com o animal, mas que não queria o dinheiro de volta. Sem nada responder e com a cara de poucos amigos, ele aceitou a devolução e eu me afastei feliz da vida. Fiquei tão feliz por me livrar do daquele problemão quadrúpede que, ao invés de voltar para casa, dirigi-me ao bar da Rosinha, que ficava próximo e que sempre abria cedo, fosse qual fosse o dia da semana. Rosinha surpreendeu-se me vendo apenas de bermuda, sem camisa e descalço, naquela manhã ensolarada de um domingo de março de 1989, mas apenas sorriu cumprimentando-me. Devolvi-lhe o cumprimento, sentei-me, pedi uma cerveja e tira-gosto de lingüiça frita. Tomei o primeiro copo, olhei para fora do bar e tentei imitar o relincho de um cavalo. Tentei sem sucesso a primeira vez, a segunda e continuei tentando, até quando Rosinha, com a mão no meu ombro, perguntou: - Pelo amor de Deus, Chico, você não está ficando doido não, né?”
Escrito por chicoflores às 19h57
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| 03/12/2009 |
Do esoterismo ao complexo de cocô Claro que eu me reprovo quando sou surpreendido por alguma extemporânea vontade de fazer alguma coisa, como se, de uma hora para outra, matar o tempo e preencher minhas horas de divino ócio se tornassem imperativos. Nesses momentos, faço autocrítica, relembro a minha condição de jornalista aposentado e livre de imposições, e mantenho-me como estou: se estiver apenas coçando o saco deitado na cama ou no sofá, continuo sem dar bola para mais nada. Todavia, em certos instantes raríssimos, até que me deixo levar pela vontade de me movimentar e fazer algo produtivo, desde que não seja obrigatório e não me exija muito tempo e esforço. Assim, com o prévio consentimento unânime de todos os órgãos, células e átomos de meu corpo, procuro alguma coisa para fazer que, na maioria das vezes, se restringe a escrever uma crônica desinteressada no meu blog e/ou simplesmente navegar na internet. Hoje, mesmo, como fui acordado abruptamente, bem antes das 10 horas, pelos irritantes latidos dos cães da vizinha do apartamento ao lado, levantei-me e fui direto para o computador. Não tinha nenhum objetivo em mente e passei a pular de sites em sites, em busca de assunto e leitura atraentes que me acrescentassem algum novo conhecimento, principalmente nas áreas esotérica e metafísica, que sempre me prendem a atenção pelos surpreendentes conceitos e ensinamentos sobre a vida. Faço isso sem sequer me preocupar com a inutilidade da busca, pois sei, de verdade, que de nada me servirão quaisquer novos aprendizados, pois continuarei sendo o que sempre fui e sou. Aliás, na minha idade - velho no sentido lato - tentar mudar seria o mesmo que malhar em ferro frio, pois não tenho mais sensibilidade para adotar transformações de conteúdo, além das físicas como as inexoráveis novas rugas, as dores nas juntas e a irreversível brochura. Mesmo assim, por pura curiosidade, vou conhecendo opiniões de mestres, dos que se dizem mestre e dos que se acham no direito de dizer e escrever besteiras. Diga-se de passagem, hoje me concentrei muito mais em sandices do que em conceitos sérios sobre vida, talvez porque ainda estava com raiva dos cachorros da vizinha. Mas, valeu a pena, pois constatei que é muito maior a quantidade de bizarrias sobre o assunto do que opiniões plausíveis, na retórica, e aceitáveis, na lógica dos conceitos. Li, por exemplo, que “a vida é uma eterna dor e dor é parte da natureza que nos habita. Não se foge da dor”. Outro dizia que “vivenciar a dor sem receio nos aproxima de nós mesmos, levando-nos ao autoconhecimento, elemento crucial para que vivamos em maior plenitude”. Encontrei mais um desses “mestres” que assegurava: “se, de verdade, tomarmos consciência de que não necessitamos fugir de nossas dores, mas que podemos usá-las numa procura comum pela vida, essas mesmas dores se transformam em sinais de esperança“. Cá com meus botões eu pensei: esses caras dizem isso porque não tiveram que passar, como eu passei, o último final de semana amargando uma lancinante dor de dente que só foi atenuada na segunda-feira, depois do pronto atendimento odontológico feito pela jovem dra. Mirela Tamanini, que é cirurgiã dentista aqui no bairro. Foram quase 72 horas de intensa agonia e desespero, uma experiência que me permite suspeitar que quem faz apologia da dor, no mínimo, tem complexo de cocô.
Escrito por chicoflores às 08h18
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| 24/11/2009 |
Papo sério de ex-aviador com morcego em vôo de risco Não é minha a frase “quando o homem aprender a respeitar até o menor ser da criação, seja animal ou vegetal, ninguém precisará ensiná-lo a amar seu semelhante". Também não sei de quem é, apesar de ter procurado bastante pelo seu autor na internet. Nem mesmo tive sucesso ao perguntar à dona Janete, moradora aqui do bairro e que faz parte da Associação Protetora dos Animais, pois ela sequer a tinha ouvido em toda sua vida. Fiquei na ignorância da autoria, mas me emocionei quando a li hoje pela manhã, num site de defesa animal. Achei-a tão realista que até a classifiquei de máxima filosófica de profundidade e amplitude imensuráveis, e a coloquei entre as sentenças irretorquíveis já pronunciadas por alguém, ao longo de séculos. É inteligente, tem sentido, reflete a realidade, está de acordo com as leis naturais e, irremediavelmente, estimula a reflexão. Se minha precária formação filosófica não tivesse respaldada em ensinamentos marxistas, por certo eu classificaria de “dogma” a frase que me emocionou. Faria isso sem pestanejar, mas não posso, pois no fundo do meu inconsciente, ainda reverberam conceitos doutrinários, por exemplo, como o do saudoso sábio Mão Tse Tung, que dizia: "A bosta de boi é mais útil que os dogmas, pois serve para fazer estrume". Tudo isso vem a propósito de uma visita inusitada que tive hoje de madrugada. Eu havia dormido, depois de umas quatro garrafas de cerveja ouvindo músicas celtas cantadas por Enya, com a porta da varanda do quarto aberta, pois fazia calor e uma agradável aragem de vento Nordeste amenizava a temperatura. Estava dormindo, mas um ruído frenético de bater de asas dentro do quarto me despertou. Acendi o abajur da cabeceira da cama e me deparei com um assustado morcego em vôo de risco, sem rumo e controle algum, dentro do quarto. Deslocava-se rápido de um lado para outro, mas sempre se chocava com as paredes sem encontrar a porta aberta, por onde, acredito, havia entrado. Eu fiquei o mais quieto possível, torcendo para que animal, que eu sabia ser um dos excelentes piloto criados pela natureza, se safasse. O drama do morcego - e, diga-se de passagem, meu também – durou uns cinco minutos, chegando ao ponto de eu, achando que ele tivesse tido uma pane de instrumentos que cegara o seu radar, me prontificasse a ajudá-lo. Devagar, fazendo movimentos bem lentos, peguei um dos travesseiros, tirei a fronha e esperei o animal passar perto de mim. Dei sorte na primeira tentativa e o capturei, respirando aliviado, por mim e por ele. Ainda dentro da fronha consegui agarrá-lo de um jeito que não o machucasse, o desenrolei, o encarei e vociferei em voz alta: “Filho da puta, nunca mais entre em casa de humanos, pois você pode ser morto”. E, enquanto ele me olhava fixamente, como se entendendo o que eu dizia, completei: “Vou soltá-lo, seu merda, mas de agora em diante, antes de decolar, também cheque os instrumentos de vôo, porra!!!”. Levei-o até a varanda, olhei-o pela última vez e, constatando que ele me parecia tranqüilo e pronto para um vôo visual e sem radar até sua toca ou ninho, soltei-o. Ele se foi e eu voltei a dormir, com a certeza de que havia feito uma boa ação... Uma boa ação não só em relação a ele, mas também a mim, pois o desastrado morcego me fez relembrar de muitos sufocos que eu igualmente passei quando ainda voava.
Escrito por chicoflores às 22h16
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| 20/11/2009 |
Sinceramente, eu não preciso da Bíblia Tem uma coisa em que minha divina preguiça não interfere, mesmo que ela esteja em seu auge, como naquele gostoso furor da negação de tudo, inclusive de coçar a frieirinha do dedão do pé. Nesse momento, mesmo que nenhum impulso elétrico estimule algum nervo de qualquer região do meu corpo, o hábito se impõe e eu me vejo cedendo à tentação de enrijecer a musculatura e sair para a caminhada do dia. Digo com toda sinceridade que faço isso sem qualquer constrangimento por estar negando, só nesse caso específico (claro!), minha atual filosofia de vida. Sequer penso em estar ferindo a coerência e deitando por terra uma estrutura de caráter bem concebida. Inclusive, nem mesmo me arrependo do desgaste de energia e do tempo perdido nessas andanças sem rumo pelas ruas do bairro onde moro. Só sei que faço, diariamente, o que qualquer outro preguiçoso acharia um despautério sem tamanho. E olhem que não sou um preguiçoso comum e nem concebo a preguiça como uma mera vontade de não fazer nada. Isso porque estou filosoficamente bem respaldado e meus argumentos vão muito mais além do que a simplória conceituação teológica dogmatiza. Para mim, ser preguiçoso é estar de bem com a vida e com Deus. Eu, por exemplo, sei que nos primórdios dos tempos, usavam-se dogmas aparentemente divinos para estimular o escravo a trabalhar sem parar, dez, doze, quinze e até dezoito horas por dia. Era dito para esses pobres coitados, como está na Bíblia, que “a preguiça faz cair em profundo sono e o ocioso padecerá de fome”. (Eclesiaste 10.18). O cara parava porque desmaiava e era substituído. Alias, a escravatura usou eficientemente a Bíblia para submeter povos inteiros à dominação escravocrata por muitos séculos. No Brasil, mesmo, usaram-se até padres católicos na doutrinação dos negros, nas fazendas, sobre o “grande pecado da preguiça”. A idéia era colocar Deus contra os negros e fazê-los trabalhar sem descanso para buscarem a remissão do pecado de gostar, por exemplo, de uma soneca pós-almoço. Portanto, quando eu falo sobre minha preguiça, não estou cometendo heresia, me chocando contra desígnios divinos e nem falando pelos cotovelos. Estou apenas dizendo que eu me tornei um preguiçoso porque preguiça não é defeito. Ao contrário, é uma dádiva que a aristocracia, em qualquer de sua época, sabe muito bem e assim a desfrutou e ainda a desfruta até hoje, basta entrar nos seus domínios para constatar. A coisa vem de muito longe: na Grécia antiga, os cidadãos eram os nobres que só se ocupavam da defesa e da administração da comunidade, devendo, portanto, estarem livres todo o tempo para velar, com a sua força intelectual e física, pelos interesses da República. Os encarregados de todo o tipo de trabalho eram os escravos que tinham de cuidar de tudo que exigisse força física. E não livravam nem o preparador de Kurabie ou Moussaká. Também os romanos só conheciam duas profissões nobres e livres: donos de fazendas e ser militar. Viviam por direito à custa do Tesouro, sem precisar prover a subsistência através de nenhuma das “sordidae artes”, como designavam qualquer tipo de trabalho físico que pertencia por direito aos escravos. O senador Brutus, por exemplo, para levantar o povo, acusou o imperador Tarquínio de ter feito os artesãos e os pedreiros cidadãos livres. Como eu disse, eu provo por a+b que preguiça é uma inerência sublime de castas que serão sempre cercadas de privilégios, sem precisar fazer nada ou dar duro para viver. Mais ou menos assim como eu que, agora aposentado, me dou ao luxo de ser preguiçoso em tempo integral, só reservando uma hora diária para fazer minha caminhada. As 23 horas restantes do dia eu passo cultuando o ócio, sem precisar usar a Bíblia.
Escrito por chicoflores às 23h19
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| 12/11/2009 |
Agora, sim, eu tenho minha espreguiçadeira Quando Suslof, um dos principais teóricos marxistas da ex-URSS, perguntou ao poderoso premier Stalin, trinta minutos antes de ser iniciada uma importante reunião do Comitê Central da União Soviética, naquela tarde de maio do ano de 1938, por que ele acabara de condenar à prisão perpétua, na Sibéria, um importante membro do Governo, - um tal de Mikail Serguei Ivanovith -, recebeu como resposta: Я ненавижу ленивый. Они вредны для социализма. O grande teórico ficou apavoradamente pasmo. Também pasmo ficou o próprio Mikail, que não teve nem tempo para uma explicaçãozinha rápida tipo “fui mal interpretado, eu só queria permissão para tirar minha sonequinha da tarde, antes de ir para a reunião. É um hábito antigo”... Aliás, mesmo que tentasse se explicar, ninguém o ouviria, pois todos que estavam no gabinete, naquele momento, sumiram num piscar de olhos, depois da sentença do chefe. Até Nikita Kruchov, que sucederia Stalin anos mais tarde, também saiu de fininho. O Pravda, jornal oficial, publicou a decisão de Stalin como manchete de primeira página. O título era: “Camarada Stalin livra a Pátria do Socialismo da ação nefasta de preguiçosos”. O lead da matéria asseverava: “Numa ação corajosa e histórica, o primeiro ministro da União Soviética, o querido Camarada Josef Stalin, iniciou ontem uma guerra sem trégua contra os preguiçosos, uma corja que tem em mente apenas boicotar a construção do socialismo”. Mesmo alimentando uma sentida pena histórica de Mikail, estou contente por não ter sido um aposentado vivendo naquela época na ex-URSS. Como me tornei aberta e escancaradamente um adepto da ociosidade e apologista da sonequinha da tarde, com certeza minha sentença não teria sido a da deportação para a Sibéria, mas, sim, a da imediata execução. Bom, mas como sou um feliz aposentado brasileiro do Século 21, resta apenas deplorar o acontecido com um adepto da soneca da tarde, nos tempos do stalinismo na ex-URSS. Nada mais do que isso posso fazer sobre o caso Mikail. Porém, estou pronto até para pegar em armas se o Governo brasileiro continuar insensível às reivindicações e virar definitivamente as costas para os aposentados desta nação. E por falar em reivindicação, há tempos venho sonhando com uma espreguiçadeira, dessas mais modernas que são acolchoadas e têm mecanismos de controle de inclinação. Tinha visto várias e de diversos tipos, mas nenhuma havia me agradado, pois estavam fora dos padrões por mim concebidos. Mas isso até ontem, quando encontrei, numa pequena loja de móveis aqui do bairro, a tal que eu almejava. Hoje mesmo, tirei uma reconfortante soneca de quase uma hora aconchegado nela. E não vejo a hora de acabar esta crônica desinteressada e sem qualquer valor literário para voltar a me sentar na minha nova aquisição e apreciar o final de tarde como um preguiçoso irremediavelmente convicto. Pronto, acabei. Viva!!!
Escrito por chicoflores às 19h49
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| 02/10/2009 |
O Rio de Janeiro não me deve nada Aceitarei e dobrar-me-ei humildemente às críticas que me vierem a ser feitas por haver me mantido distante das manifestações de apoio ao Rio de Janeiro para sediar os Jogos Olímpicos de 2016. Não direi nada em minha defesa, não vou retrucar ou tentar me explicar, pois as entenderei como admoestações legítimas. Na verdade, estarão cheios de razões aqueles que, apontando-me o dedo indicador, vociferarem que eu poderia ter feito muita coisa em favor da candidatura carioca, antes da decisão desta sexta-feira (2) do Comitê Olímpico, em Copenhague, Dinamarca. E acharei até que meus possíveis críticos estarão sendo parcimoniosos. Omiti-me e sou réu confesso. Eu poderia, ao longo de todo este ano, ter desenvolvido um trabalho persistente de convencimento da importância do Rio de Janeiro para palco das Olimpíadas e mostrado, com argumentos abundantes, caudalosos e irretorquíveis, que os demais concorrentes não estavam à altura da “Cidade Maravilhosa”. Inclusive, uma imensa estrutura sempre esteve à minha disposição para desempenhar o meu papel de apologista do Rio e não a usei. Eu poderia ter usado os bancos das pracinhas da "Bocha" e da "Igreja Católica", aqui de Jardim Camburi (Vitória-ES), para discursar, pelo menos três vezes por semana, e conclamar os moradores do bairro a se unirem numa única energia em favor do Rio. Também, poderia ter pedido a Dino Grácio - e ele não me negaria -, umas boas idéias artísticas para panfletos que eu distribuiria aqui no bairro, nos dias de feira-livre. Igualmente, poderia ter enchido o “Blog do Chico.Flores” de crônicas enaltecendo a terra carioca como o melhor lugar do mundo e, para reforçar, deveria pedido o apoio do "Blog Donoleari". Enfim, perdi a oportunidade de ser hoje parabenizado pelos meus esforços para a vitória do Rio de Janeiro. Mas, vou tentar me redimir, colocando-me à disposição do Comitê Olímpico Brasileiro como atleta, com chances de medalha de ouro, na categoria caminhada depois do almoço, na qual eu sou mundialmente imbatível. Sei que essa modalidade não é disputada, mas como a Olimpíada do Rio de Janeiro será a primeira na América Latina, desde o ano 776 a.C - portanto uma novidade milenar - acho plausível adicionar-se uma novidade aos Jogos. Acredito que dependerá apenas de vontade política para que eu vire um atleta olímpico. Digo vontade política porque saúde eu tenho. Para um cara com 67 anos como eu, não significa anormalidade ter pressão arterial oscilando entre 15 e 17 por 9, crises periódicas de hemorróidas e uma irremediável ciclotimia. Portanto, para minha idade, estou fisicamente apto e não há nenhum empecilho. E como já são mais de 18 horas, vou ali no barzinho “Laranja Mecânica” treinar um pouco de levantamento de copos. Fui....
Escrito por chicoflores às 18h40
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| 25/09/2009 |
A prática de exercícios físicos não cura hemorróidas
Está cientificamente provado que os exercícios físicos realizados de forma regular estimulam o sistema imunológico, ajudam a prevenir doenças cardiovasculares e diabetes tipo 2, moderam o colesterol e previnem a obesidade. Também melhoram a saúde mental e o cara passa a ter uma vida saudável e feliz e a rir de tudo... Até das dívidas. Aliás, a prática de exercícios físicos sempre integrou a existência humana, mas sofreu mudanças à medida que se processava a evolução cultural dos povos. Assim, a sua orientação no tempo e no espaço manteve-se em sintonia com os sistemas políticos, sociais, econômicos e científicos vigentes em cada etapa das sociedades humanas. Na Pré-História, por exemplo, havia a preocupação do desenvolvimento da força bruta, sob o ponto de vista utilitário-guerreiro. Quem não era forte o bastante sofria mais que bode embarcado. Já na Antiguidade, os exercícios físicos focavam o aspecto somático, harmonia de formas, musculatura saliente e o corpo esbelto. Cultuava-se a fase anatômica da educação física. Na Grécia antiga, ter corpo esbelto era moda entre os homens e quem quisesse se destacar e ter oportunidades na sociedade tinha de malhar correndo muito, levantando pesos, lançando dardos, pulando obstáculos ou nadando grandes distâncias. Se o cara fosse raquítico, coitado, virava marginal e tinha de abaixar a cabeça quando passava um Hércules, um Aquiles ou um Teseu, que eram as maiores celebridades da época. (As más línguas diziam, à boca miúda, que os três eram bichas enrustidas).
Na atualidade, graças ao progresso da fisiologia e outras ciências, o conceito anatômico perdeu importância para o fisiológico. Hoje, o que se deseja não é a força, mas sim, a saúde. Neste estágio do desenvolvimento da humanidade a educação física visa, a par do preparo físico, também a educação no seu tríplice aspecto: físico, moral e intelectual. De minha parte, eu faço o que posso e não deixo de praticar, diariamente, a minha caminhada de 10 quilômetros cravados. Faço isso porque gosto e também porque é saudável e me faz sentir bem. Aliás, como garantiam os chineses há milênios, “a saúde está nos pés”, e andar é, de verdade, um remédio milagroso. Só não cura hemorróidas, e disso sou testemunha e provo.
Escrito por chicoflores às 18h33
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| 13/09/2009 |
Eu afirmo e provo: não sou decadente musical Sou desses caras que se emocionam com um fundo musical de desenhos animados baseado em obras eruditas, assim como me emociono com filmes que utilizam temas de peças sinfônicas como as valsas de Strauss e de Chopin. Posso ainda me comover, dependendo da hora e do ambiente, ouvindo o Coral da IX Sinfonia de Beethoven e até chegar às lágrimas com as “Ave Maria” de Schubert, de Gounod e de Somma, se já estiver bêbado. Tenho um senso musical bem sensível e, por várias vezes, já “paguei mico” por ser surpreendido chorando, em farrinhas comuns, em casa de amigos, por causa de uma simples música. Uma vez, na casa do jornalista Marcelo Martins, entrei em pranto quando, de um CD de músicas e intérpretes antigos, ouvi Elizeth Cardoso cantando o clássico da MPB no “Rancho Fundo”. Ninguém entendeu, só eu. Neste exato momento, por exemplo, enquanto teclo esta crônica saboreando “beer” de minha adega, estou ouvindo Andrea Boccelli cantando “Con te partirò” e meus olhos já estão úmidos. Na seqüência, virão “Romanza”, “Vivo per lei”, “Per amore”, “Canto della terra” e “Rapsódia”. E se eu ainda não tiver terminado a crônica, mas estiver sóbrio, continuarei ouvindo: “Nel cuore lei”, “Per amore”, “Voglio restare cosi” e “Il maré calmo della Serà”. Esta crônica sobre música e seus efeitos em mim foi inspirada pela conversa que tive, minutos atrás, no barzinho “Laranja Mecânica”, aqui de Jardim Camburi (Vitória ES), com Anselmo, um psicoterapeuta de Campos (RJ) que está passando férias aqui no bairro, na casa de uma irmã casada com um cara que trabalha na Vale do Rio Doce. Dizia-lhe eu, lá no bar, que a vida humana seria chata sem sons e, talvez, nem se proliferasse no planeta. Cheguei ao ponto de argumentar que músicas como “As times goes by” foram responsáveis por milhões de nascimentos. E ele, sem questionar, aduziu: “A música também é mais uma das ferramentas da decadência do espírito humano. E essa decadência está se reverberando em todas as demais dimensões espirituais”. Claro que concordei, pois achei a tese atraente e de ingredientes suficientes para animar a farra até o fechamento do bar. Uma tese excelente, sussurrei para meus botões, e até pensei em me preparar para tomar muitas. Primeiro porque tinha conteúdo concreto e segundo porque abria escancaradas brechas para questionamentos de cunhos esotérico e metafísico, mas como não queria ficar muito tempo no bar, eu me ative ao lado concreto. Por isso apenas disse que ele estava certo e que a decadência musical, no caso brasileiro específico, era fruto de uma sacanagem da indústria fonográfica aliada à mídia – jornais, rádios e TVs -, com total apoio do stablischment. Essa curriola descobriu que lixo musical dá lucro, de um lado em dinheiro grosso com a ignorância da população e de outro em dividendos políticos com aumento da alienação do povo. O Governo, por estar beneficiado, não investe em educação musical nas escolas pública e nem se interessa em criar leis obrigando as escolas particulares a ensiná-la. Portanto, os ganhos são substanciosos, pois indústria fonográfica e mídia faturam os tubos com lixo musical e o Governo ganha com a alienação, principalmente, da juventude que sequer imagina fazer música de protesto, como os jovens da época da ditadura. Na verdade, eu acho que os caras que hoje fazem música são meros picaretas e não artistas, assim como os programadores da industria fonográfica e das mídia não passam de criminosos da cultura por estimularem e aceitarem as aberrações musicais. Por via de conseqüência, um grande abismo separa a música do Brasil atual da música formadora da cultura musical brasileira predominante até quatro décadas atrás, quando o mundo aplaudia nossa musicalidade inata e copiava nossas músicas. Até quatro décadas atrás, a música brasileira, em todas as suas manifestações, motivava as pessoas a refletirem. Suas letras discorriam sobre a vida, o amor, o comportamento, a nação, a política e a família, sem perder o lirismo das rimas e nem a forma bem característica dos ritmos brasileiros. Hoje, a picaretagem é tão safada, tanto no nível da indústria fonográfica quanto da mídia, que ameaça nossa identidade musical. Aliás, depois de músicas como “Créo” e “Eguinha Pocotó”, não sei aonde a nação da parar. Eu, por exemplo, paro por aqui, pois consegui terminar a crônica ouvindo Andrea Boccelli, estou na terceira cerveja de minha adega e agora estou ouvindo Elis Regina cantando o “Bêbado e o equilibrista”. Em seguida, virão “Casa no Campo”, “Romaria”, “Louvação”, “O mestra sala dos mares”, “Canto de Ossanha” e “Águas de março”. Claro que já estou emocionado ao ponto das lágrimas e de porre, mas vou dormir tranquilo e, para agradar ao psicoterapeuta Anselmo, sem decadência espiritual.
Escrito por chicoflores às 21h00
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BRASIL, Sudeste, VITORIA, JARDIM CAMBURI, Homem, Portuguese, Portuguese, Bebidas e vinhos, Música Outro -
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